Venezuela, um Gigante Adormecido no Petróleo: Entenda os Motivos da Baixa Produção
A Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo, superando a marca de 300 bilhões de barris, o que representa cerca de 17% do total global conhecido. No entanto, sua produção atual mal atinge 1% do volume mundial, um cenário contrastante que intriga especialistas e o mercado internacional.
Essa discrepância entre potencial e realidade na produção de petróleo venezuelano tem raízes em uma complexa combinação de fatores. Desde as características intrínsecas do seu petróleo até a infraestrutura precária e a crônica falta de investimentos, diversos obstáculos impedem que o país explore economicamente sua vasta riqueza natural.
Para se ter uma ideia, enquanto a Venezuela luta para manter sua produção, o Brasil, com reservas menores, supera seu desempenho. Em novembro de 2025, o país brasileiro produziu 3,773 milhões de barris de petróleo por dia, um volume significativamente maior.
Compreender as razões por trás dessa performance limitada é crucial para analisar o cenário energético global e o futuro da indústria petrolífera venezuelana. As explicações envolvem desde a composição química do óleo até a gestão econômica e política do país. Conforme informação divulgada pelo g1, especialistas apontam três motivos principais: as características do petróleo venezuelano, a infraestrutura precária e a falta de investimentos.
As Peculiaridades do Petróleo Venezuelano e Seus Desafios
A natureza do petróleo extraído em um país influencia diretamente os custos de produção e refino, e com a Venezuela isso não é diferente. Luiza Guitarrari, pesquisadora da FGV Energia, explica que o petróleo brasileiro é mais leve, facilitando o refino e resultando em derivados mais valiosos como gasolina e diesel, conferindo ao Brasil uma vantagem técnica e comercial.
Em contraste, o petróleo venezuelano é caracterizado por ser mais viscoso, com alto teor de enxofre e metais. Esse petróleo mais pesado exige processos mais caros tanto na extração quanto no refino, segundo Guitarrari. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), acrescenta que essa composição também impacta nas emissões, com o petróleo brasileiro emitindo menos CO₂, um fator cada vez mais relevante no mercado internacional.
A pesquisadora Guitarrari ainda destaca que o petróleo pesado venezuelano, muitas vezes, gera derivados de menor valor agregado, utilizados em aplicações industriais mais intensivas, como na indústria do cimento. Isso, consequentemente, reduz sua atratividade comercial em comparação com petróleos mais leves.
Infraestrutura Defasada: Um Gargalo na Produção e Exportação
Além das características do petróleo, a Venezuela enfrenta graves problemas em sua infraestrutura, afetando desde a extração até o transporte, processamento e exportação. Sanções internacionais, alta dívida externa e instabilidade política têm dificultado a atração de investimentos, levando à deterioração da malha logística do setor.
“Mesmo sentada sobre uma enorme reserva, a Venezuela teve dificuldades para viabilizar o escoamento e o processamento do petróleo por causa das lacunas na infraestrutura”, afirma Guitarrari. A própria estatal PDVSA chegou a reduzir a produção por falta de mercados para exportação, especialmente após a imposição de sanções.
Atualmente, cerca de 43% das exportações venezuelanas seguem para países asiáticos. Os Estados Unidos, apesar de possuírem refinarias capazes de processar petróleo pesado, compram em volumes bem menores do que antes das sanções. Manter uma produção elevada sem capacidade de exportação aumentaria custos e riscos de armazenamento, levando a PDVSA a optar por cortes na produção.
A Queda nos Investimentos e a Perda de Experiência Técnica
A queda acentuada nos investimentos ao longo das últimas décadas é outro fator central para a baixa produção de petróleo na Venezuela. A indústria petrolífera demanda aportes constantes em manutenção, tecnologia e qualificação de pessoal.
Com a nacionalização do setor nos anos 2000 e a exigência de participação majoritária da PDVSA nos projetos, muitas empresas internacionais deixaram o país. A saída dessas companhias foi acompanhada pela perda de quadros técnicos experientes, um golpe significativo para a capacidade operacional do setor.
Claudio Frischtak, fundador da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, afirma que “Sem um ambiente de negócios favorável, o capital se deprecia e a produção cai. No caso da Venezuela, isso ocorreu de forma extrema”. O cenário se agravou durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, com a redução do investimento externo e o envelhecimento acelerado dos equipamentos.
Perspectivas Futuras: Investimento Americano e Recuperação Lenta
Recentemente, após a prisão de Nicolás Maduro, o presidente dos EUA, Donald Trump, expressou a intenção de abrir o setor petrolífero venezuelano para a atuação de grandes companhias norte-americanas. A promessa é de investimentos bilionários para recuperar a infraestrutura e ampliar a produção, visando restabelecer volumes de exportação significativos.
No entanto, especialistas alertam que uma eventual retomada não seria imediata. Arne Lohmann Rasmussen, analista da consultoria Global Risk Management, adverte que “Aumentar significativamente a produção exige investimentos elevados e pode levar anos”. Assim, apesar de deter as maiores reservas do planeta, a Venezuela enfrenta um longo caminho para reverter o quadro de baixa produção.