UE dá luz verde a acordo com Mercosul, criando a maior zona de livre comércio global
A União Europeia deu um passo significativo em direção à criação da maior zona de livre comércio do mundo ao aprovar o acordo comercial com o Mercosul. A decisão, divulgada pelo Chipre, que detém a presidência rotativa do bloco europeu, representa um marco nas relações econômicas entre os dois blocos.
Uma ampla maioria dos Estados-membros da UE votou a favor do acordo, com a confirmação dos votos por escrito encerrada no início da tarde de hoje. Essa aprovação pelos países membros abre caminho para a assinatura oficial do tratado, que segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, pode ocorrer já em 17 de janeiro.
O acordo, que encerra mais de duas décadas de negociações, prevê a redução e eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, além da harmonização de regras em áreas como comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. Para o Brasil, a expectativa é de acesso facilitado a um mercado de aproximadamente 451 milhões de consumidores.
A notícia foi recebida com otimismo pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que destacou os potenciais benefícios para o Brasil. “Este acordo fortalece o multilateralismo, o comércio entre os dois blocos, comércio com regras, promove investimentos, devemos ter mais investimentos europeus no Mercosul, fortalece a sustentabilidade, porque o Brasil assume compromisso de combate às mudanças climáticas. É ganha-ganha. Produtos mais baratos e de melhor qualidade”, afirmou Alckmin, conforme divulgação oficial.
Resistência europeia e impactos no agronegócio
Apesar do apoio de setores empresariais e industriais, o acordo enfrenta forte oposição de agricultores europeus, especialmente na França. Produtores rurais franceses temem a concorrência com produtos latino-americanos, que, segundo eles, podem ser mais baratos e ter custos de produção menores, inclusive em relação a padrões ambientais.
A França, juntamente com Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, votou contra a aprovação do acordo. A Bélgica optou pela abstenção. Para a aprovação no Conselho Europeu, era necessária uma maioria qualificada, com apoio de pelo menos 15 países que representassem 65% da população total do bloco. A Itália, que mudou seu posicionamento para apoiar o tratado, foi crucial para a obtenção dessa maioria qualificada.
Benefícios econômicos e estratégicos do acordo UE-Mercosul
A Comissão Europeia estima que o acordo permitirá a eliminação de mais de 4 bilhões de euros em impostos anuais sobre as exportações da UE. O Mercosul eliminará tarifas sobre cerca de 91% das exportações europeias em 15 anos, enquanto a UE retirará progressivamente as taxas sobre 92% das exportações do Mercosul.
Defensores do tratado argumentam que ele pode oferecer uma alternativa à dependência da China para o fornecimento de minerais críticos, como o lítio, essencial para a indústria de baterias. Além disso, o acordo é visto como uma forma de mitigar os efeitos de políticas protecionistas, como as tarifas impostas anteriormente pelos Estados Unidos.
Aprovação no Parlamento Europeu ainda é um obstáculo
O tratado comercial UE-Mercosul ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor. Apesar da oposição declarada de alguns países, como a França, a expectativa é de que o Parlamento também aprove o texto, consolidando a criação da maior zona de livre comércio do mundo.
O governo francês tem enfrentado críticas internas, inclusive de partidos de extrema-esquerda e extrema-direita, por não conseguir barrar a aprovação do tratado. O presidente francês, Emmanuel Macron, reafirmou a posição contrária de Paris, argumentando que os benefícios econômicos para a França e a Europa seriam limitados.
Mudança de postura da Itália e apoio brasileiro
A mudança de posição da Itália, que passou de contrária a favor do acordo, foi decisiva. A primeira-ministra Giorgia Meloni condicionou o apoio à consideração das preocupações italianas, especialmente no setor agrícola. Uma comunicação da Comissão Europeia propondo acelerar a liberação de 45 bilhões de euros para agricultores foi vista como um passo positivo.
O Brasil celebra a aprovação, com o ministro Geraldo Alckmin ressaltando que cerca de 30% dos exportadores brasileiros, aproximadamente 9 mil empresas, já vendem para a UE. O acordo visa fortalecer o comércio, promover investimentos e reforçar o compromisso com a sustentabilidade e o combate às mudanças climáticas.