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Guerra de IA no WhatsApp: Meta ‘expulsa’ rivais e Cade intervém em disputa que pode definir o futuro da tecnologia no Brasil

Meta AI vs. Concorrência: A Batalha pela Inteligência Artificial no WhatsApp Ganha Contornos Jurídicos no Brasil

O aplicativo de mensagens WhatsApp, um dos mais populares no Brasil, tornou-se o palco de uma intensa disputa pelo domínio da inteligência artificial (IA). A Meta, dona do WhatsApp, tentou impor restrições a desenvolvedores de IA que ofereciam seus serviços na plataforma, gerando um conflito que agora chega ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Inicialmente, a medida da Meta visava vetar desenvolvedores de chatbots de IA que oferecessem serviços gerais, como o ChatGPT e o Copilot. No entanto, a interpretação da regra por muitas empresas que utilizam IA para atendimento ao cliente no WhatsApp foi de que a proibição as atingiria diretamente. A confusão se instalou, com a equipe comercial da Meta agindo para apaziguar os não afetados pela medida.

A decisão da Meta, que teria escala global, atingiria um número restrito de companhias. O foco eram as empresas proprietárias de serviços de IA de uso geral, e não os chatbots corporativos de bancos como Itaú ou de empresas de tecnologia como a Latam, que usam IA para demandas específicas de seus produtos e serviços.

Contudo, empresas que construíram seus negócios dentro do app da Meta, como a espanhola Luzia e a uruguaia Zapia, viram-se em risco. Ambas relataram dificuldades em dialogar com a Meta, com um diretor de parcerias da empresa afirmando que a mudança não era negociável e que a Meta manteria a decisão sem oferecer um caminho viável para a concorrência e inovação.

Cade Intervém e Suspende a Proibição no Brasil

Em resposta às reclamações, o Cade agiu rapidamente e barrou a mudança no Brasil poucos dias antes de sua entrada em vigor globalmente, em 15 de janeiro. O órgão abriu um inquérito para investigar a conduta da Meta, que, por sua vez, afirmou que revisaria os termos do WhatsApp Business para evitar a presença de “desenvolvedores de IA”, argumentando que o propósito do aplicativo é facilitar negócios, não viabilizar outras finalidades.

A Meta justificou a medida alegando que o surgimento de chatbots de IA na Plataforma do WhatsApp Business sobrecarrega seus sistemas, que não foram projetados para esse tipo de suporte. A empresa promete recorrer da decisão do Cade, que, ao atender às demandas, tangibiliza o incômodo que ChatGPT e companhias causaram à gigante de tecnologia.

O Domínio da Meta AI e o Filtro de Informações

No Brasil, os usuários se acostumaram a realizar diversas atividades pelo WhatsApp, incluindo o uso de IA. A Meta capitalizou essa familiaridade ao iniciar a implantação de seu próprio serviço de IA, o Meta AI, no Brasil através do aplicativo de mensagens, antes mesmo de levá-lo ao Instagram no país. Em outros mercados, a ordem foi inversa.

Enquanto outros chatbots de IA operavam no WhatsApp com contas Business, o Meta AI foi integrado de forma nativa à plataforma, com seu botão acessível diretamente na barra de pesquisa e sobrepondo conversas. Nos países onde a proibição da Meta vigorou (exceto Itália e Brasil), o Meta AI reina absoluto. Isso levanta preocupações sobre um possível filtro intransponível e opaco no acesso à informação, visto que as pessoas cada vez mais utilizam chatbots de IA para se informar.

Empresas Sentem o Impacto e Acusam a Meta de Unilateralidade

Para empresas como Luzia e Zapia, oferecer um chatbot no WhatsApp é um movimento natural, dada a forte penetração do aplicativo na população brasileira. Ambas as empresas, que contam com milhões de usuários globais, sendo a maioria no Brasil e em outros países da América Latina, têm no WhatsApp sua principal porta de entrada, especialmente em mercados onde o download de aplicativos e o uso de interfaces web são menos frequentes.

As empresas argumentam que a decisão da Meta de banir assistentes de IA generativa foi unilateral e contraria a postura anterior da empresa, que incentivou ativamente a criação de produtos para operar no WhatsApp. A Luzia, por exemplo, tem mais da metade de seus 85 milhões de usuários no Brasil, enquanto o Zapia atende 6 milhões de pessoas, com maioria concentrada em Brasil, Colômbia, Argentina e México.

Mercado Relevante e a Luta Contra o Monopólio da IA

A disputa no Cade toca em um ponto sensível para reguladores antitruste: a noção de mercado relevante. Luzia e Zapia argumentam que o WhatsApp detém domínio no mercado brasileiro de mensagens instantâneas e que a Meta estaria usando essa posição para dominar o segmento de serviços e soluções de IA, um ponto aberto a debates. Essa visão se assemelha a casos anteriores nos Estados Unidos, onde uma interpretação restrita do mercado relevante levou a condenações por monopólio contra a Meta.

O desdobramento desse caso no Brasil pode definir o futuro de um canal de acesso crucial para a IA e impactar diretamente a operação de diversas empresas que apostaram no modelo de negócios integrado ao WhatsApp. A decisão do Cade, ao barrar a exclusão de rivais, abre caminho para uma maior concorrência e para a continuidade da inovação no acesso à inteligência artificial no país.

IA Cria Abismo Global: Países Pobres e o Brasil Correm Risco de Atraso Permanente, Alerta ONU

A Inteligência Artificial pode aprofundar a desigualdade global e condenar países como o Brasil a um atraso permanente, segundo relatórios internacionais.

O início do século 20 foi marcado por uma acentuada desigualdade entre países, exemplificada pela diferença na expectativa de vida. O avanço tecnológico, contudo, impulsionou a chamada “Grande Convergência”, reduzindo distâncias econômicas e de desenvolvimento. A internet permitiu a fragmentação da produção global, beneficiando nações como China e Índia.

Agora, o cenário é de incerteza quanto ao impacto da Inteligência Artificial (IA). Evidências iniciais apontam para uma nova fase de divergência global, onde a prosperidade gerada pela IA pode ser distribuída de forma extremamente desigual.

Países líderes em tecnologia, como Estados Unidos e China, lideram investimentos em infraestrutura e desenvolvimento de modelos de IA. Em contraste, nações em desenvolvimento tendem a se tornar meras consumidoras de IA como serviço, ficando com a renda e extraindo valor das economias locais.

Conforme o relatório “The Next Great Divergence” do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a corrida pela IA já começou desequilibrada. Enquanto potências investem massivamente em chips e data centers, países mais pobres adquirem a tecnologia “como serviço”, limitando seu potencial de geração de valor. A informação foi divulgada pelo PNUD.

Adoção da IA: Norte Global Dispara na Frente

A disparidade não se restringe ao desenvolvimento, mas também à adoção e ao ritmo de uso da IA. Um estudo da Microsoft indica que a adoção de IA no Norte Global ocorre em uma taxa quase duas vezes maior do que no Sul Global. Isso significa que países ricos estão integrando a IA em seus setores econômicos de forma mais profunda e produtiva.

A Anthropic, em seu Índice Econômico, reforça essa tendência. Relatórios apontam que países ricos utilizam a IA para trabalho e ganho de produtividade, enquanto nações mais pobres ainda a empregam em tarefas mais pontuais e menos estratégicas. Essa diferença no uso consolida a vantagem dos países já desenvolvidos.

Tecnologia de Retorno Crescente e o Risco para o Brasil

A IA é uma tecnologia de retorno crescente, o que significa que quem larga na frente obtém vantagens exponenciais. Os países que lideram a inovação aprimoram seus modelos e aplicações, reorganizando outros setores da economia em um ciclo acelerado de crescimento. Isso cria um novo processo de divergência, com um ritmo ainda mais intenso.

O Brasil, apesar de ter um Plano Brasileiro de IA (PBIA) com previsão de R$ 23 bilhões para os próximos quatro anos, enfrenta um desafio monumental. Esse valor é considerado irrisório diante dos investimentos de Estados Unidos e China, tornando a competição na fronteira tecnológica inviável no curto e médio prazo.

Oportunidades e Desafios Internos para o Brasil

Apesar da dura realidade, o Brasil pode buscar movimentos estruturantes para garantir soberania tecnológica em nichos específicos. Setores como o agronegócio, com vasta disponibilidade de dados, apresentam vantagens comparativas que podem ser exploradas com o uso estratégico da IA.

No entanto, o primeiro passo crucial é arrumar a casa. A desigualdade interna no Brasil reflete diretamente no acesso à tecnologia. A pesquisa TIC Domicílios 2025 revela que, embora 32% dos usuários de internet no país utilizem IA, o acesso é altamente desigual: 69% da classe A usam ferramentas de IA, contra apenas 16% das classes D/E. A disparidade também se observa na escolaridade, com 59% de adoção entre pessoas com ensino superior e 17% entre aquelas com ensino fundamental. A IA ainda é majoritariamente utilizada para fins pessoais, e não profissionais, no país.