O surpreendente destino do pênis bovino: de subproduto a iguaria e petisco
O que para muitos pode soar inusitado, para a indústria frigorífica brasileira tem se tornado uma fonte de lucro cada vez mais expressiva. O pênis bovino, conhecido popularmente como vergalho, está conquistando novos mercados, tanto no exterior quanto internamente. Na Ásia, especialmente na China, o órgão é valorizado por suas supostas propriedades afrodisíacas, enquanto no Brasil ele se consolida como um petisco nutritivo e funcional para cães.
Essa dualidade de uso demonstra a capacidade de reinvenção da cadeia produtiva da carne bovina, transformando um item que antes poderia ser descartado em produtos de valor agregado. A extração e o processamento do vergalho são processos que agregam valor, e a crescente demanda por esses produtos reflete tendências de consumo tanto no mercado pet quanto em nichos gastronômicos internacionais.
A medicina tradicional chinesa tem um longo histórico de atribuir propriedades terapêuticas a órgãos de animais, e o pênis bovino não é exceção. A crença de que o consumo de um órgão pode beneficiar a mesma parte do corpo humano é um conceito ancestral que impulsiona essa demanda.
No Brasil, o foco tem sido o bem-estar animal. O petisco feito de pênis bovino não só agrada os cães, mas também contribui para a higiene bucal e combate o tédio. Conforme informação divulgada pelo Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos no terceiro trimestre de 2025, o que, em tese, gerou um volume similar de vergalhos produzidos, evidenciando o potencial de mercado.
O pênis bovino na culinária asiática: um afrodisíaco ancestral
Na China, o consumo de pênis de animais, incluindo o bovino, é associado a benefícios para a saúde sexual masculina. Segundo Jiang Pu, consultora gastronômica do Instituto Sociocultural Brasil China (Ibrachina), a medicina tradicional chinesa acredita que o consumo de determinados órgãos pode tratar a mesma parte do corpo em quem os ingere. O pênis bovino, nessa cultura, é visto como um alimento que pode prolongar o tempo de ereção e aumentar o desejo sexual.
Embora na Ásia sejam mais comuns os preparos com pênis de cabrito e porco, o órgão bovino também é valorizado por sua capacidade de absorver temperos e caldos, sendo consumido de diversas formas: in natura, cozido, em ensopados, desidratado ou até mesmo em pó. O formato desidratado é o mais comum para exportação.
Apesar da popularidade, o consumo entre os jovens chineses tem diminuído, similar ao que ocorre no Brasil com pratos tradicionais. A ocidentalização dos hábitos de consumo tem levado a uma menor procura por esses tipos de iguarias entre as novas gerações, conforme explica Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Imac.
O mercado pet brasileiro: um novo lar para o vergalho
No Brasil, o pênis bovino, ou vergalho, encontrou um nicho promissor no mercado pet. Comercializado como petisco para cães, o produto oferece benefícios como a redução do tédio animal, estimulando o instinto de roer, e auxiliando na limpeza dos dentes. As marcas que atuam nesse segmento destacam o caráter natural e nutritivo do alimento.
A extração do pênis bovino é um processo relativamente simples, segundo Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef. O órgão, que pode atingir até um metro de comprimento, é higienizado, suas membranas são removidas e, em seguida, desidratado para comercialização. Esse processo de desidratação reduz o peso da peça, tornando-a mais prática para o transporte e venda.
O crescimento do mercado pet nos últimos anos tem impulsionado a demanda por produtos como o vergalho. O diretor do Imac, Bruno de Jesus Andrade, ressalta que o vergalho é um produto natural, rico em nutrientes para os animais, e sua industrialização o tornou prático para o consumo.
Valoração e exportação: o pênis bovino como commodity
Todos os frigoríficos do Brasil comercializam o pênis bovino, consolidando-o como um subproduto importante da pecuária. A Sul Beef, por exemplo, informa que mais de 90% de suas vendas de vergalho são destinadas ao mercado asiático, enquanto o restante é voltado para o setor pet em países como Brasil, Paraguai e Estados Unidos.
Embora não existam dados específicos sobre o volume exportado de pênis bovino, pois ele é categorizado em “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas” nos relatórios oficiais, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda desse tipo de produto para o exterior, de acordo com a plataforma Agrostat do Ministério da Agricultura.
Em mercados como Hong Kong, a tonelada do pênis bovino pode atingir US$ 6 mil, um valor superior a outros miúdos bovinos exportados para a China, como o omaso e o bucho. Essa valorização demonstra o potencial econômico do vergalho, que se junta a outros subprodutos bovinos utilizados na indústria farmacêutica, na fabricação de objetos e na culinária.
Desafios e o futuro do mercado de pênis bovino
Apesar do sucesso, o mercado asiático de pênis bovino enfrenta desafios, como a diminuição do consumo entre os jovens. A ocidentalização dos hábitos alimentares e a busca por dietas mais modernas têm impactado a demanda por pratos tradicionais, incluindo aqueles que utilizam órgãos de animais.
No mercado interno, o preço médio do quilo do vergalho para consumo pet chega a R$ 21, segundo o Imac. O valor do produto pronto para o consumo animal pode variar significativamente, com pesquisas online mostrando preços entre R$ 12 e R$ 80 por unidade, dependendo do peso e da marca.
A versatilidade do pênis bovino, que se adapta tanto ao paladar exótico asiático quanto às necessidades nutricionais e de entretenimento dos pets, garante sua relevância contínua no mercado. O futuro pode trazer novas aplicações e mercados, consolidando ainda mais esse subproduto na economia brasileira.