Brasil na Corrida da IA: Diretor do MCTI defende investimento em tecnologia própria e rebate ideia de ser apenas importador

Brasil aposta em supercomputador e ecossistema de IA para competir globalmente, sem se contentar em apenas importar tecnologia

O Brasil está traçando um caminho ambicioso no cenário global de tecnologia, com foco especial em Inteligência Artificial (IA). A visão é clara: o país não quer ser um mero espectador ou apenas um comprador de inovações, mas sim um participante ativo, explorando seu potencial econômico e humano para competir no jogo tecnológico mundial.

Essa estratégia se reflete no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos bilionários. A meta é fortalecer o ecossistema nacional, formar pesquisadores de ponta e desenvolver infraestrutura tecnológica avançada, garantindo que o Brasil ocupe um lugar de destaque, mesmo diante de gigantes como China e Estados Unidos.

O diretor do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Hugo Valadares, tem sido um dos porta-vozes dessa visão. Ele enfatiza que a formação de capital humano e o investimento em pesquisa são pilares fundamentais para o desenvolvimento tecnológico sustentável do país, uma jornada que demanda tempo e continuidade.

Diferentemente de correntes de pensamento que defendem que o Brasil se concentre na exportação de commodities e na importação de tecnologia, a gestão atual busca uma abordagem mais autônoma e estratégica. Essa perspectiva, segundo Valadares, é alinhada com a visão do presidente Lula de um Brasil mais protagonista no cenário internacional.

Brasil investe R$ 23 bilhões no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial

O governo federal destinou uma parte significativa dos R$ 23 bilhões previstos no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) para impulsionar o desenvolvimento tecnológico do país. Hugo Valadares, diretor do MCTI, reconhece que, embora expressivos, esses investimentos não colocam o Brasil em pé de igualdade direta com potências como China e Estados Unidos na corrida pela liderança em IA.

“EUA e China estão num patamar de poder tecnológico, não só tecnológico, mas financeiro, que não tem como disputar de igual para igual”, afirmou Valadares. Ele compara a disputa a uma “Champions League da IA”, onde esses dois países jogam em uma categoria própria, com investimentos na casa das centenas de bilhões de dólares.

O diretor ressalta que o Brasil precisa jogar conforme suas possibilidades, focando em áreas onde pode se destacar e construir uma base sólida. A quantidade de engenheiros, o poder computacional e a capacidade de aquisição de máquinas na China, por exemplo, são fatores que tornam a comparação direta inviável no momento.

Supercomputador de IA previsto para 2026 com investimento de R$ 1,8 bilhão

Um dos carros-chefe do PBIA é a construção de um supercomputador dedicado à inteligência artificial, com previsão de funcionamento ainda em 2026. Para concretizar essa infraestrutura, que promete estar entre as cinco mais potentes do mundo, foram reservados R$ 1,8 bilhão.

Essa iniciativa é vista como crucial para o avanço da pesquisa e desenvolvimento em IA no Brasil, permitindo a realização de simulações complexas e o processamento de grandes volumes de dados. O objetivo é criar um ambiente propício para a inovação e para a formação de pesquisadores de alto nível.

Bases de dados públicas como diferencial para o avanço da IA no Brasil

O Brasil possui um diferencial competitivo importante: a construção e manutenção de bases de dados públicas extensas e diversas, como o DataSUS, os dados da Receita Federal e o CadÚnico. Hugo Valadares destaca que essa característica pode ser um fator determinante para impulsionar a inteligência artificial no setor público.

Esses repositórios de informação, quando bem utilizados e integrados com ferramentas de IA, podem gerar insights valiosos, otimizar a gestão pública e aprimorar a entrega de serviços à população. A capacidade de coletar, organizar e analisar grandes volumes de dados é um ativo estratégico para o desenvolvimento tecnológico do país.

Formação de pesquisadores e ecossistema nacional são prioridades contínuas

A formação de pesquisadores e o fortalecimento do ecossistema nacional de inovação são conquistas que exigem continuidade e investimento a longo prazo. Valadares enfatiza que a inovação não surge da noite para o dia, mas é fruto de uma cadeia complexa que envolve investimento, formação de pessoas e um ambiente propício para o desenvolvimento.

O diretor compara os investimentos do PBIA com os realizados por países como França e Alemanha, indicando que o aporte brasileiro tem alcançado patamares internacionais, mesmo diante de limitações econômicas. A estratégia é clara, o Brasil entra no jogo para disputar onde lhe cabe, aproveitando seu potencial e formação de pessoas.

Trabalho Análogo à Escravidão em 2025: Resgate de 2.772 Pessoas Revela Nova Realidade Urbana e Alerta para Fiscalização

Brasil resgata 2.772 pessoas em condição análoga à escravidão em 2025, com alta de 26,8% e mudança para o meio urbano.

O ano de 2025 registrou um número alarmante de trabalhadores resgatados de situações análogas à escravidão no Brasil. Foram 2.772 pessoas libertadas, um aumento significativo de 26,8% em comparação com o ano anterior, quando 2.186 trabalhadores foram encontrados em condições precárias.

Esses dados foram divulgados pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), e apontam para uma realidade preocupante que exige atenção contínua. As ações de fiscalização, que totalizaram 1.594 operações específicas, garantiram mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias e resultaram na aplicação de R$ 41,8 milhões em multas.

Uma das mudanças mais notáveis em 2025 foi a inversão do perfil das ocorrências. Pela primeira vez na série histórica, o número de trabalhadores resgatados em áreas urbanas superou o do meio rural, evidenciando que a exploração não se restringe mais apenas ao campo.

As fiscalizações alcançaram mais de 48 mil trabalhadores, assegurando não apenas o combate ao trabalho escravo, mas também outros direitos trabalhistas. Conforme informação divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o recorde de resgates ainda pertence a 2007, com 6.025 pessoas libertadas.

O Perfil Urbano da Escravidão Contemporânea

Em 2025, 68% dos trabalhadores resgatados em condição análoga à escravidão foram encontrados em áreas urbanas, um salto expressivo em relação aos 30% registrados em 2024. Essa nova configuração demanda estratégias de fiscalização e combate adaptadas aos desafios do ambiente urbano.

Os setores mais afetados em 2025 incluíram obras de alvenaria, com 601 resgatados, administração pública em geral (304), construção de edifícios (186), cultivo de café (184) e extração e beneficiamento de pedras (126). A Secretaria de Inspeção do Trabalho ressalta que o trabalho escravo pode ocorrer em diversas atividades econômicas.

Dados Sociais e Principais Irregularidades

O perfil social dos resgatados em 2025 revela que a maioria era composta por homens (86%), com a faixa etária de 30 a 39 anos concentrando 26% dos casos. A região Nordeste foi a que mais registrou trabalhadores resgatados, com 65% do total. No recorte racial, 83% se autodeclararam pretos ou pardos.

Entre as irregularidades mais frequentes, destacam-se condições degradantes de trabalho, com 274 registros, a falta de registro formal em 149 ocorrências, e ambientes de trabalho inseguros em 141 casos. A ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e o descumprimento de exames médicos ocupacionais também foram infrações recorrentes.

Ações de Fiscalização e Ampliação no Trabalho Doméstico

As ações de fiscalização ocorreram em todo o território nacional, com destaque para São Paulo (215 ações), Minas Gerais (145) e Rio de Janeiro (123). Em número de resgates, Mato Grosso liderou, com 607 pessoas libertadas, seguido por Bahia (482) e Minas Gerais (393).

O trabalho doméstico também apresentou um crescimento expressivo na fiscalização, com 122 ações e 34 resgates em 2025, contra 22 ações e 19 resgates no ano anterior. A SIT planeja ampliar a atuação neste setor, com foco especial nas trabalhadoras domésticas, que estão mais expostas a situações de vulnerabilidade.

Preocupação com a Fiscalização em 2026

Apesar dos números de resgate, surgem preocupações para 2026. Documentos e relatos de auditores indicam um possível “apagão” na fiscalização contra o trabalho análogo à escravidão. Em janeiro deste ano, operações foram canceladas, deixando cerca de 78 denúncias sem atendimento.

Servidores expressam insatisfação com decisões recentes do Ministro do Trabalho, Luiz Marinho, sobre a revisão de processos de inclusão de empresas na lista suja do trabalho escravo. Em nota, o MTE afirmou que as fiscalizações não foram paralisadas e seguem ocorrendo, mas que dificuldades pontuais com a Polícia Federal afetaram as operações do Grupo Especial de Fiscalização Móvel.

O trabalho análogo à escravidão é definido pelo Código Penal como a submissão a trabalhos forçados, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição de locomoção por dívida. Para denunciar, o Sistema Ipê, pela internet, é o canal específico, onde o denunciante pode permanecer anônimo.

Todo trabalhador resgatado tem direito ao Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado (SDTR), pago em três parcelas, além de ser encaminhado para redes de assistência social e políticas públicas adequadas às suas necessidades, buscando a reconstrução de suas vidas.