PDVSA sob pressão: como fica a petroleira estatal com a ofensiva dos EUA na Venezuela?
As recentes declarações do presidente Donald Trump sobre a intenção de “assumir” o setor petrolífero da Venezuela, após a operação que retirou Nicolás Maduro do poder, colocaram o futuro da estatal PDVSA no centro do debate. A Venezuela, detentora de cerca de 17% das reservas comprovadas de petróleo do planeta, tem na PDVSA o eixo de sua economia. A dinâmica de poder e os investimentos bilionários prometidos por empresas americanas acendem um alerta sobre o destino dessas vastas reservas energéticas.
A empolgação inicial com as declarações de Trump impulsionou as ações de petrolíferas americanas, como a Chevron, que viu seus papéis subirem. No entanto, a percepção de que qualquer mudança significativa levaria tempo fez com que o mercado se ajustasse. A questão central agora é como essa ofensiva americana pode redesenhar o papel da PDVSA e da Venezuela no cenário internacional do petróleo, impactando não apenas a geopolítica, mas também o mercado global.
Apesar da intervenção, a PDVSA segue operando, com produção e refino em andamento, segundo informações da Reuters. Contudo, o principal desafio da empresa é estrutural, resultado de anos de desmonte, falta de investimento e má administração, que a enfraqueceram consideravelmente. A empresa hoje exporta um terço do volume de duas décadas atrás, mas ainda possui um potencial imenso devido às suas reservas.
Conforme informações divulgadas pelo g1, a PDVSA, responsável por cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela, tem enfrentado um longo processo de deterioração. Interferência política, corrupção recorrente, perda de quadros técnicos e sanções dos EUA, especialmente a partir de 2017, restringiram seu acesso a financiamento, tecnologia e mercados internacionais, levando a uma queda de mais de 70% na produção desde o fim dos anos 1990.
PDVSA: Um gigante enfraquecido com potencial de recuperação
Apesar dos desafios, a PDVSA conseguiu estabilizar sua produção em torno de 1 milhão de barris por dia, em parte graças a licenças especiais concedidas a empresas estrangeiras, como a americana Chevron. Welber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados e ex-secretário de Comércio Exterior, destaca que a empresa foi enfraquecida por falta de investimento e má administração, mas que seu potencial permanece enorme devido às suas vastas reservas. A empresa, que já exportou três vezes mais há 20 anos, sofre com sucateamento, mas ainda detém um trunfo crucial: suas reservas.
O plano de Trump e o interesse das petrolíferas americanas
Em coletiva de imprensa, Donald Trump afirmou que os EUA pretendem “consertar” a indústria petrolífera venezuelana, abrindo o setor para grandes empresas americanas. A proposta, segundo analistas do UBS BB, seria usar um modelo de “administração” liderado por empresas americanas para recuperar prejuízos acumulados e recolocar o petróleo venezuelano no mercado internacional. Esse modelo visa a recuperação da infraestrutura e a geração de lucros para o país, com participação direta do capital privado, sem necessariamente implicar uma estatização do setor.
Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras, avalia que a PDVSA não perderá relevância, mas precisará mudar seu modelo de atuação, marcado pelo isolamento. Barral acrescenta que o interesse das empresas americanas no petróleo venezuelano é significativo, com a possibilidade de acordos com a PDVSA para cessão de blocos ou outros formatos de parceria. O objetivo principal seria exportar para o sul dos EUA, onde há muitas refinarias, o que explica o impulso nas ações das petrolíferas americanas.
Impacto no mercado global de petróleo: limitado no curto prazo
Analistas e especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que os desdobramentos na indústria petrolífera venezuelana tendem a ter um impacto limitado sobre os preços internacionais do petróleo no curto prazo. A produção atual, em torno de 1 milhão de barris por dia, está bem abaixo do potencial histórico. Uma recuperação expressiva demandaria um longo processo de investimentos, reconstrução de infraestrutura e mudanças profundas na governança da PDVSA.
Além disso, o mercado global de petróleo já opera sob a expectativa de excesso de oferta e uma demanda mais fraca em 2026, o que reduz a probabilidade de um impacto rápido ou significativo nos preços. Helder Queiroz, professor da UFRJ e ex-diretor da ANP, aponta que mesmo um cenário otimista indicaria uma recuperação gradual. No entanto, uma eventual recuperação da produção venezuelana tornaria o mercado mais competitivo, pressionando países como o Brasil e a Petrobras a acelerarem a exploração de suas reservas.
Dimensão geopolítica: EUA versus China e Rússia
A atuação dos EUA na Venezuela também possui uma dimensão estratégica no cenário geopolítico. Washington busca reduzir a influência de Pequim e Moscou sobre o país sul-americano, que é o principal destino do petróleo venezuelano, com compras em torno de 430 mil barris por dia pela China, além de ser credora de cerca de US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo. Essa movimentação pode levar outros países da região a reavaliar sua dependência desse financiamento. No entanto, Barral ressalta que ainda não há uma estratégia americana claramente definida para o futuro da Venezuela após a derrubada de Maduro, o que gera incertezas sobre os próximos passos no tabuleiro geopolítico e energétic o.