IPO no exterior: o que leva empresas brasileiras a buscar Wall Street em vez da B3?
Depois de um longo período de silêncio, o mercado de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) no Brasil começa a dar sinais de vida. A primeira a dar esse passo em quatro anos será o banco digital PicPay, com sua listagem na Nasdaq nesta quinta-feira (29). Pouco depois, o Agibank também anunciou sua intenção de abrir capital, ambos optando pelo mercado americano.
Essa escolha por bolsas estrangeiras não é novidade, mas reforça um debate sobre as condições atuais do mercado brasileiro. Especialistas apontam que a **alta taxa de juros no Brasil**, atualmente em 15% ao ano, é um dos principais fatores que afastam investidores da renda variável.
Quando os juros estão elevados, a **renda fixa se torna mais atraente**, pois oferece retornos seguros e significativos. Isso diminui o volume de dinheiro direcionado para a bolsa de valores, impactando negativamente a demanda por novas ações e tornando o ambiente menos propício para IPOs.
Essa situação contrasta com o cenário nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed) iniciou um ciclo de cortes de juros. Conforme informação divulgada pelo g1, o Fed reduziu as taxas em setembro do ano passado, e elas se encontram agora na faixa de 3,50% a 3,75%. Essa diferença no ciclo de juros torna o mercado americano mais convidativo para empresas em busca de captação de recursos.
O Impacto da Selic Elevada no Mercado Brasileiro
A taxa Selic, que atingiu o patamar de 15% ao ano em junho do ano passado, representa o maior nível em 20 anos. Essa escalada, que começou em 2021 com a taxa em 2% e subiu para 9,25% ao final daquele ano, inibe a disposição dos investidores em assumir riscos no mercado de ações. Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, explica que a **taxa real de dois dígitos é muito alta**, desencorajando investimentos que não sejam em renda fixa.
Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America (BofA) no Brasil, complementa que, com a subida dos juros, os fundos de equity perderam dinheiro. Isso gera um **menor apetite por risco** e, consequentemente, uma demanda reduzida por novas ofertas de ações, como os IPOs.
PicPay e Agibank: Um Sinal para o Mercado?
A decisão do PicPay e do Agibank de abrir capital nos EUA também está ligada a outros fatores. No caso do PicPay, outras empresas do setor financeiro e de pagamentos, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, já estão listadas em Wall Street. Essa familiaridade do mercado americano com o setor pode facilitar o processo.
Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, ressalta que abrir capital no exterior não é uma solução única. Ele afirma que, embora algumas companhias testem o mercado americano, **há conversas com empresas interessadas em fazer emissões de ações na B3**.
Otimismo Cauteloso para o Futuro dos IPOs no Brasil
A perspectiva de que o Banco Central do Brasil (BC) inicie o ciclo de cortes da Selic já no primeiro trimestre traz um **cenário mais otimista para o mercado brasileiro de IPOs** nos próximos meses. Dados do boletim Focus indicam que a Selic pode terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 pontos percentuais.
Greenlees, do Itaú BBA, considera que essa queda esperada, embora talvez não gere um mercado tão abundante quanto no passado, é suficiente para retomar algumas ofertas. Ele vê a taxa, mesmo que ainda elevada, como um **bom sinal para os padrões brasileiros**.
Além dos juros, fatores como o cenário geopolítico global e os sinais de compromisso com as contas públicas pelo novo governo são observados por investidores e empresas. Saraiva, do BofA, mostra um otimismo cauteloso para 2026, prevendo o início de uma retomada com poucas operações no Brasil. Ele acredita que uma agenda de reformas, ajuste fiscal e a continuidade da queda dos juros em 2027 poderiam impulsionar significativamente o mercado de capitais brasileiro.