Alga Marinha Seca Coreana: De Modesta Refeição a Fenômeno Global com Preços Históricos
Preta, crocante e versátil, a alga marinha seca, conhecida como ‘gim’, transcendeu suas origens humildes na Coreia do Sul para se tornar um petisco cobiçado em todo o mundo. O que antes era um acompanhamento comum nas mesas coreanas, agora figura como um símbolo da crescente influência cultural do país, impulsionando exportações recordes e, consequentemente, elevando seus preços a patamares inéditos.
A transformação do ‘gim’ de item acessível para um produto de exportação de alto valor reflete o sucesso de outras indústrias sul-coreanas, como a de semicondutores, rendendo-lhe o apelido de ‘semicondutor preto’. A popularidade global é um reflexo direto do fenômeno K-pop e K-dramas, que despertam o interesse por ingredientes e culinária coreana em diferentes continentes.
No entanto, essa ascensão meteórica não vem sem seus desafios. Consumidores sul-coreanos, acostumados com o baixo custo do ‘gim’, agora se deparam com aumentos significativos, gerando preocupação e até mesmo a consideração de reduzir o consumo. A demanda internacional, embora celebrada pela indústria, pressiona o mercado interno.
Para entender a magnitude desse fenômeno e as medidas que estão sendo tomadas para equilibrar o mercado, acompanhe os detalhes desta matéria, que explora a jornada da alga marinha seca, de um petisco ‘humilde’ a um ícone global. Conforme informações divulgadas pelo Korea Maritime Institute (KMI), as exportações sul-coreanas de algas marinhas secas atingiram o recorde de US$ 1,13 bilhão em 2025.
A Conquista do Paladar Mundial
Lee Hyang-ran, que vende ‘gim’ há 47 anos em um mercado de Seul, relata a mudança drástica na percepção do produto no exterior. “No passado, as pessoas de países ocidentais achavam que os coreanos comiam algo estranho que parecia um pedaço de papel preto”, comenta a vendedora, de aproximadamente 60 anos. Hoje, a cena é outra: “E nunca achei que venderia ‘gim’ para eles. Mas agora todos vêm aqui e compram”.
Essa aceitação global é impulsionada pela curiosidade gerada pela cultura pop coreana. Miki, uma jovem japonesa de 22 anos, descobriu o ‘gim’ através de K-dramas. Ela observa que, embora o Japão tenha um produto similar, o ‘nori’, o sabor do ‘gim’ coreano é distinto, sendo mais leve e crocante, frequentemente preparado com óleo de gergelim e sal. Viola, de 60 anos, originária de Nova York, adota o ‘gim’ como um lanche rápido, comparando-o a batatas fritas, mas ressaltando ser uma “alternativa mais saudável”.
O ‘Gim’ e a Economia Sul-Coreana
A Coreia do Sul se consolidou como a maior produtora e exportadora mundial de ‘gim’, suprindo mercados na Ásia, América do Norte e Europa. A importância econômica do produto é tamanha que alguns o comparam ao “semicondutor preto” do país, em alusão à proeminência sul-coreana na indústria de semicondutores. As exportações de algas marinhas secas alcançaram um marco histórico em 2025, totalizando US$ 1,13 bilhão, segundo o Korea Maritime Institute (KMI).
No entanto, o aumento da demanda global tem reflexos diretos nos preços internos. Historicamente um alimento acessível, o ‘gim’ que em 2024 custava cerca de 100 won (aproximadamente R$ 0,30) por folha, viu seu preço ultrapassar 150 won (cerca de R$ 0,55) no mês passado, atingindo um recorde. Produtos premium chegam a custar 350 won por folha (em torno de R$ 1,30), segundo relatos de vendedores como Lee.
Impacto no Bolso do Consumidor e Ações de Mercado
Kim Jaela, na casa dos 30 anos, que costumava comprar cerca de 500 folhas de ‘gim’ por vez, expressa preocupação com os custos crescentes. “Meu Deus, realmente ficou mais caro em alguns dólares! Felizmente, eu consigo aguentar mais algumas semanas com dois pacotes de ‘gim’, mas, se eu vir o mesmo preço ou um valor ainda maior depois, provavelmente não vou repor”, afirma, enquanto verificava os preços em seu celular.
Kim Namin, de 29 anos, que gerencia uma fábrica de ‘gim’ temperado com 30 anos de tradição familiar na ilha de Wando, confirma que a maior parte da produção nos últimos cinco anos tem sido destinada à exportação. “Não há fábricas de ‘gim’ suficientes para acompanhar o aumento da demanda”, explica, mencionando que a família considera expandir as operações. Ele ressalta que o ‘gim’ é um alimento muito sensível a preço na Coreia do Sul, e qualquer aumento gera resistência pública.
Respostas do Governo e da Indústria
Diante da pressão sobre os preços e a insatisfação dos consumidores domésticos, o governo sul-coreano e empresas do setor buscam soluções. O Ministério dos Oceanos e Pesca prometeu monitorar a situação para estabilizar os preços. A empresa de alimentos Pulmone, por exemplo, planeja criar um centro de pesquisa e desenvolvimento de algas em terra firme, visando a colheita durante todo o ano.
Essas medidas visam não apenas conter a inflação, mas também garantir o abastecimento interno sem prejudicar a crescente demanda internacional. A professora Lee Eunhee, da Inha University, destaca que “Para atender à demanda externa, os preços no mercado interno estão sendo pressionados para cima”. A situação reflete um desafio complexo de equilibrar o sucesso global com a acessibilidade local.