EUA reconhecem liquidação do Banco Master e bloqueiam bens, aprofundando crise financeira
Uma reviravolta significativa ocorreu no caso do Banco Master, com a justiça dos Estados Unidos, mais especificamente o juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconhecendo oficialmente a liquidação da instituição financeira brasileira. A decisão, proferida nesta quinta-feira (8), atende a um pedido da EFB Regimes Especiais de Empresas, liquidante nomeada pelo Banco Central do Brasil (BC).
O bloqueio de ativos se estende não apenas ao Banco Master, mas também às suas empresas controladas no país norte-americano, incluindo o Banco LetsBank S.A., o Banco Master de Investimento S.A. e a Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. A medida visa impedir qualquer movimentação financeira ou tentativa de recuperação de ativos por parte das entidades brasileiras em solo americano.
A decisão judicial americana representa um duro golpe para os esforços da defesa do Banco Master em tentar reverter o cenário. Recentemente, advogados da instituição acionaram a justiça dos EUA buscando barrar o reconhecimento da liquidação, argumentando, entre outras coisas, sobre uma inspeção no Banco Central determinada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e a possibilidade de reversão do processo.
Contudo, o TCU, em uma decisão posterior, suspendeu a inspeção no Banco Central após acolher um recurso do BC, o que foi interpretado como um recuo da Corte de Contas diante da complexidade e repercussão do caso. A situação gerou tensão interna no TCU, com alegações de contratação de influenciadores para disseminar informações nas redes sociais, aumentando a preocupação com a imagem da instituição.
Origem das Dificuldades: Estratégia de Alto Risco do Banco Master
Fundado em 1974 como Máxima Corretora de Valores, o Banco Master passou por diversas transformações ao longo de sua história. No entanto, a adoção de uma estratégia de crescimento acelerado sob o comando de Daniel Vorcaro, a partir de 2019, começou a gerar questionamentos no mercado a partir de 2022. Analistas e investidores identificaram sinais de fragilidade no modelo de negócios.
A instituição passou a captar recursos com custos cada vez mais elevados, direcionando-os para investimentos considerados de maior risco. Essa abordagem, onde o banco pagava juros altos para captar dinheiro e precisava assumir riscos ainda maiores para sustentar esses pagamentos, é uma estratégia que tende a funcionar apenas no curto prazo e eleva o risco de desequilíbrio financeiro.
Alerta nos CDBs e Investigações da Polícia Federal
Os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) oferecidos pelo Banco Master se tornaram um sinal de alerta. Eles chegavam a pagar até 140% do CDI, um percentual muito acima do padrão de mercado. Especialistas apontaram que essa oferta indicava uma dificuldade de captação de recursos a custos menores no mercado tradicional, levando o banco a depender cada vez mais do investidor pessoa física.
As preocupações se confirmaram com investigações da Polícia Federal, que indicam que parte dos recursos captados teria sido utilizada para cobrir déficits operacionais e honrar compromissos antigos. Esse modelo de negócio depende intrinsecamente de uma entrada constante de novos recursos para se manter.
Tentativa de Venda Frustrada e Irregularidades Apontadas
Em paralelo, o banco buscou uma saída através da venda de participação societária. Uma tentativa notória ocorreu em março de 2025, com negociações avançadas para a venda de 58% do capital ao Banco de Brasília (BRB), em uma operação estimada em R$ 2 bilhões. Contudo, o acordo rapidamente atraiu a atenção de órgãos de controle.
O Ministério Público do Distrito Federal e o Ministério Público de Contas apontaram falta de transparência e possíveis riscos aos acionistas do banco público. As investigações da Polícia Federal, iniciadas em 2024, identificaram indícios de que o Banco Master teria inflado artificialmente carteiras de crédito e registrado como sólidos ativos de baixa ou inexistente qualidade, distorcendo sua real situação financeira.
Liquidação Decretada e Proteção aos Investidores
Diante deste cenário, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro, interrompendo suas atividades, afastando a diretoria e acionando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O FGC tem como objetivo indenizar correntistas e investidores até o limite legal de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Paralelamente, a justiça determinou o bloqueio de bens de controladores e ex-executivos, enquanto as investigações prosseguem para apurar responsabilidades civis e criminais. A decisão nos EUA de bloquear ativos reforça o cerco às instituições financeiras envolvidas na liquidação do Banco Master.