Ibovespa registra alta recorde acima de 30% em 2025, impulsionada por cortes de juros nos EUA e expectativas positivas no Brasil
O Ibovespa disparou em 2025, superando 33% de valorização, e está prestes a registrar a maior alta anual desde 2016, quando avançou 38,9%, conforme levantamento da consultoria Elos Ayta. A alta surpreende, principalmente porque a taxa básica de juros brasileira (Selic) deve encerrar o ano em 15% ao ano, maior patamar em 20 anos. Esse cenário, que normalmente atrai investimentos para renda fixa, não tem freado o apetite pelo mercado acionário.
Conforme informações divulgadas pelo g1, o desempenho do Ibovespa reflete fatores internacionais favoráveis, combinados com um cenário local que mantém as ações brasileiras como oportunidades promissoras. Entre as principais influências estão os cortes de juros realizados pelo Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, que criam condições para maior entrada de capital em mercados emergentes, incluindo o Brasil.
Além disso, expectativas de redução da taxa Selic no Brasil a partir de 2026 e a presença de ações negociadas abaixo dos níveis pré-pandemia atraíram investidores em busca de valor. Mesmo com os juros elevados e as incertezas fiscais que ainda preocupam o mercado, a bolsa vem demonstrando resiliência e capacidade de recuperação.
Nos tópicos seguintes, o cenário internacional, a dinâmica dos juros, a situação fiscal brasileira e as expectativas para 2026 são apresentados em detalhes, explicando as razões por trás desse desempenho admirável da bolsa neste ano.
Influência decisiva do cenário internacional para alta do Ibovespa
O principal vetor por trás da valorização do Ibovespa em 2025 foi a mudança na política monetária dos Estados Unidos. O Federal Reserve cortou a taxa de juros três vezes ao longo do ano, reduzindo a faixa de 4,25%-4,50% para 3,50%-3,75%, o menor patamar desde setembro de 2022, com expectativa de novos cortes em 2026.
Juros americanos menores diminuem a atratividade dos títulos públicos norte-americanos, conhecidos como Treasuries, levando investidores a buscar maiores retornos em ativos de risco nos mercados emergentes. O Brasil, nesse contexto, se destacou nas carteiras globais, beneficiando tanto a bolsa quanto o real.
O gestor Lauro Sawamura Kubo, da Patagônia Capital, destaca ainda a maior preocupação dos investidores com as contas públicas dos EUA, num ano marcado pelo mais longo shutdown da história americana e por pressões políticas internas, que aumentaram a volatilidade e incentivaram realocações para países como o Brasil.
Cenário interno: juros elevados, mas com expectativa de cortes que impulsionam a bolsa
A Selic deve fechar 2025 em 15% ao ano, maior nível em quase duas décadas, cenário que normalmente favorece investimentos em renda fixa, mas que não impediu o Ibovespa de avançar. Segundo o economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares, a antecipação pelo mercado de uma redução dessa taxa para 12,25% no fim de 2026 estimula a atração de capitais para a bolsa.
Harrison Gonçalves, do CFA Society Brazil, explica que o mercado financeiro opera com foco no médio e longo prazos, olhando mais para os próximos cinco anos do que para as condições atuais. Assim, a valorização do Ibovespa mesmo em meio a juros elevados reflete essa projeção positiva sobre a evolução da economia e dos ativos brasileiros.
Resiliência da bolsa e ações brasileiras abaixo do potencial esperado
O ótimo desempenho também está ligado ao fato de que muitas ações de empresas brasileiras sólidas ainda eram negociadas em níveis inferiores aos pré-pandemia. Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, ressalta que o chamado “pessimismo mal dimensionado” deu lugar à percepção de que essas ações estavam em verdadeiras “pechinchas”.
Essa visão tornou a bolsa brasileira vista como relativamente barata e com potencial maior de retorno, especialmente num momento em que ganhos em mercados externos estão mais limitados. Investidores aproveitaram para antecipar compras acreditando numa retomada consistente.
Perspectivas e desafios para o Ibovespa em 2026 em ano eleitoral
Apesar do otimismo, a situação fiscal do Brasil segue sendo um ponto de atenção para o mercado, segundo Lauro Sawamura Kubo. Os temores em relação ao risco fiscal não foram eliminados, apenas ficaram em segundo plano neste ano devido a fatores temporários.
A volatilidade verificada no início de dezembro, com a entrada do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na pré-candidatura presidencial, levou a fortes oscilações na bolsa e no dólar, apontando para um cenário de maior instabilidade política e econômica em 2026, ano eleitoral.
Analistas avaliam que a fragmentação da oposição pode favorecer a reeleição do presidente Lula (PT), dificultando a convergência em torno de um candidato de centro-direita e aumentando a incerteza em relação a ajustes fiscais mais profundos. São esses fatores que poderão influenciar o ritmo da bolsa no próximo ano.
Para Felipe Tavares, a combinação de uma possível redução na taxa Selic e alternância no ciclo político pode levar o Ibovespa a atingir 200 mil pontos em 2026, mas ele alerta que cenários adversos podem frustrar essa visão positiva. Marcos Praça estima o índice entre 170 mil e 200 mil pontos, ressaltando que diversos fatores complexos deverão impactar o fluxo de investimentos.
Por sua vez, Einar Rivero, da Elos Ayta, reforça que o índice segue os ciclos econômicos e políticos do país, alternando entre fases de avanços vigorosos e ajustes profundos, balizado pela percepção de risco e o ambiente macroeconômico vigente.