IA na Medicina: Chatbots e Apps Prometem Revolução, Mas Médicos Alertam para Riscos e Diagnósticos Errôneos
A inteligência artificial (IA) tem se tornado cada vez mais presente em nosso cotidiano, e agora, aplicativos e chatbots baseados em IA estão invadindo a área da medicina. Com promessas de oferecer orientação médica, diagnósticos preliminares e até mesmo auxiliar em tratamentos, essas novas ferramentas tecnológicas atraem a atenção de muitos pacientes em busca de respostas rápidas para suas preocupações de saúde.
No entanto, o avanço da IA na medicina não vem sem controvérsias. Profissionais da saúde demonstram apreensão com a precisão e a segurança dessas tecnologias, alertando para o perigo de diagnósticos equivocados e a desinformação que podem ser gerados. A linha entre uma ferramenta de apoio e um substituto para o acompanhamento médico profissional está se tornando cada vez mais tênue.
Um exemplo alarmante é o caso de um paciente que, após ser curado de um tumor, foi levado a acreditar que seu câncer havia retornado por conta de uma informação errônea de um chatbot. O receio de que essas ferramentas possam causar angústia e pânico desnecessários em pessoas vulneráveis é uma preocupação real para os médicos, que ressaltam a importância do contexto e da orientação humana em momentos delicados.
A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) possui diretrizes que isentam de aprovação aplicativos de saúde baseados em IA se estes forem destinados à educação do paciente e não ao diagnóstico. Contudo, a linha é tênue, e muitos aplicativos, como o “Eureka Health: AI Doctor”, que se autointitulava “seu companheiro de saúde pessoal completo”, foram removidos de lojas de aplicativos após a divulgação de que prometiam “tornar você seu próprio médico”, diagnosticando e conectando usuários a prescrições e cuidados reais.
Aplicativos de IA: Promessas e Realidades na Avaliação de Condições de Saúde
Um número crescente de aplicativos disponíveis nas lojas da Apple e do Google afirma usar IA para auxiliar pacientes. Um exemplo é o “AI Dermatologist: Skin Scanner”, que alega ter mais de 940 mil usuários e a mesma precisão que um dermatologista profissional. O aplicativo permite que usuários enviem fotos de manchas e outras condições de pele, com a IA fornecendo uma avaliação de risco “instantânea” e afirmando “salvar sua vida”.
No entanto, a precisão desses aplicativos é frequentemente questionada. O “AI Dermatologist”, por exemplo, apesar de alegar mais de 97% de precisão, recebeu centenas de avaliações negativas. Usuários relatam imprecisões graves, como um caso em que um pequeno tumor no braço foi avaliado com 75% a 95% de chance de ser cancerígeno, mas que, após consulta médica, foi considerado inofensivo. Outra usuária, que havia sido diagnosticada e operada de melanoma, teve a condição classificada como “benigna” pelo aplicativo, gerando o temor de que “algumas pessoas confiem nele e adiem as consultas médicas”.
Regulamentação e a Responsabilidade por Trás da IA Médica
A falta de regulamentação clara para aplicativos de saúde baseados em IA é um ponto de grande preocupação. Embora muitos aplicativos incluam avisos de que não são ferramentas de diagnóstico e não substituem um médico, a forma como são comercializados, como no caso do “Eureka Health”, pode gerar expectativas equivocadas nos usuários. A Apple e o Google agiram para remover aplicativos que apresentavam funcionalidades enganosas ou prejudiciais, como o “AI Dermatologist”, após serem alertados pela imprensa.
A desenvolvedora do “AI Dermatologist”, Acina, afirmou que o objetivo do aplicativo não é fornecer um diagnóstico médico, mas sim oferecer uma análise preliminar para incentivar os usuários a consultarem um profissional. A empresa também ressaltou que seus modelos de IA são construídos com base em literatura dermatológica validada por especialistas e que “falsos positivos podem ocorrer em qualquer sistema de IA”. No entanto, o aplicativo foi restabelecido no Google Play após uma revisão, sob a alegação de que a empresa esclareceu explicitamente que o app não é um dispositivo médico.
O Papel Crucial do Profissional Médico na Era da IA
Diante desse cenário, a orientação de um profissional de saúde qualificado se torna ainda mais indispensável. Um porta-voz da OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, afirmou que seus modelos mais recentes melhoraram no manejo de questões de saúde, mas reforçou que o chatbot “não se destina a substituir a orientação de um profissional médico”. A capacidade de um médico de oferecer empatia, contextualizar informações e garantir um plano de tratamento seguro e eficaz é algo que a IA, por enquanto, não pode replicar.
É fundamental que os pacientes abordem as informações obtidas através de chatbots e aplicativos de IA com **ceticismo saudável**, utilizando-as como um ponto de partida para conversas com seus médicos, e não como um substituto para o aconselhamento profissional. A **segurança do paciente** deve ser sempre a prioridade máxima, e a confiança em diagnósticos gerados por algoritmos sem a devida validação médica pode ter consequências graves para a saúde.