IA Cria Abismo Global: Países Pobres e o Brasil Correm Risco de Atraso Permanente, Alerta ONU

A Inteligência Artificial pode aprofundar a desigualdade global e condenar países como o Brasil a um atraso permanente, segundo relatórios internacionais.

O início do século 20 foi marcado por uma acentuada desigualdade entre países, exemplificada pela diferença na expectativa de vida. O avanço tecnológico, contudo, impulsionou a chamada “Grande Convergência”, reduzindo distâncias econômicas e de desenvolvimento. A internet permitiu a fragmentação da produção global, beneficiando nações como China e Índia.

Agora, o cenário é de incerteza quanto ao impacto da Inteligência Artificial (IA). Evidências iniciais apontam para uma nova fase de divergência global, onde a prosperidade gerada pela IA pode ser distribuída de forma extremamente desigual.

Países líderes em tecnologia, como Estados Unidos e China, lideram investimentos em infraestrutura e desenvolvimento de modelos de IA. Em contraste, nações em desenvolvimento tendem a se tornar meras consumidoras de IA como serviço, ficando com a renda e extraindo valor das economias locais.

Conforme o relatório “The Next Great Divergence” do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a corrida pela IA já começou desequilibrada. Enquanto potências investem massivamente em chips e data centers, países mais pobres adquirem a tecnologia “como serviço”, limitando seu potencial de geração de valor. A informação foi divulgada pelo PNUD.

Adoção da IA: Norte Global Dispara na Frente

A disparidade não se restringe ao desenvolvimento, mas também à adoção e ao ritmo de uso da IA. Um estudo da Microsoft indica que a adoção de IA no Norte Global ocorre em uma taxa quase duas vezes maior do que no Sul Global. Isso significa que países ricos estão integrando a IA em seus setores econômicos de forma mais profunda e produtiva.

A Anthropic, em seu Índice Econômico, reforça essa tendência. Relatórios apontam que países ricos utilizam a IA para trabalho e ganho de produtividade, enquanto nações mais pobres ainda a empregam em tarefas mais pontuais e menos estratégicas. Essa diferença no uso consolida a vantagem dos países já desenvolvidos.

Tecnologia de Retorno Crescente e o Risco para o Brasil

A IA é uma tecnologia de retorno crescente, o que significa que quem larga na frente obtém vantagens exponenciais. Os países que lideram a inovação aprimoram seus modelos e aplicações, reorganizando outros setores da economia em um ciclo acelerado de crescimento. Isso cria um novo processo de divergência, com um ritmo ainda mais intenso.

O Brasil, apesar de ter um Plano Brasileiro de IA (PBIA) com previsão de R$ 23 bilhões para os próximos quatro anos, enfrenta um desafio monumental. Esse valor é considerado irrisório diante dos investimentos de Estados Unidos e China, tornando a competição na fronteira tecnológica inviável no curto e médio prazo.

Oportunidades e Desafios Internos para o Brasil

Apesar da dura realidade, o Brasil pode buscar movimentos estruturantes para garantir soberania tecnológica em nichos específicos. Setores como o agronegócio, com vasta disponibilidade de dados, apresentam vantagens comparativas que podem ser exploradas com o uso estratégico da IA.

No entanto, o primeiro passo crucial é arrumar a casa. A desigualdade interna no Brasil reflete diretamente no acesso à tecnologia. A pesquisa TIC Domicílios 2025 revela que, embora 32% dos usuários de internet no país utilizem IA, o acesso é altamente desigual: 69% da classe A usam ferramentas de IA, contra apenas 16% das classes D/E. A disparidade também se observa na escolaridade, com 59% de adoção entre pessoas com ensino superior e 17% entre aquelas com ensino fundamental. A IA ainda é majoritariamente utilizada para fins pessoais, e não profissionais, no país.

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