A melodia que move o campo: Cantos de trabalho celebram 46 anos do Globo Rural e a força da tradição rural brasileira
Em um mundo cada vez mais conectado e acelerado, algumas tradições se mantêm firmes, ecoando saberes ancestrais e fortalecendo laços comunitários. Os cantos de trabalho, uma prática secular em diversas regiões rurais do Brasil, são um exemplo vivo dessa resistência cultural.
Essas melodias, entoadas durante atividades laborais, não servem apenas para marcar o ritmo das tarefas, mas também para aliviar o cansaço, celebrar a vida e preservar a memória de gerações. Eles são a trilha sonora da roça, onde a música se entrelaça à terra e ao suor.
O programa Globo Rural, que celebrou seus 46 anos de existência no último domingo (4), dedicou seu especial à riqueza e à importância desses cantos de trabalho. A reportagem mostrou como essa tradição ainda pulsa em comunidades que mantêm o trabalho manual como parte essencial de sua rotina.
Do batido das vagens de feijão na Bahia ao assobio que acompanha o arar da terra em Minas Gerais, os cantos de trabalho são um testemunho da criatividade e da resiliência do povo do campo. Essa tradição, conforme divulgado pelo Globo Rural, é um elo poderoso com o passado e um pilar para o futuro das comunidades rurais brasileiras.
Da Bahia a Alagoas, a música que embala o labor no campo
Na Bahia, a sincronia dos trabalhadores ao bater as vagens de feijão para soltar os grãos se transforma em um espetáculo sonoro. Em Alagoas, a ancestralidade do povo Kariri-Xocó é mantida viva através dos cantos que acompanham as crianças em suas atividades.
Em Minas Gerais, a produção de farinha e algodão em mutirões é embalada por cantigas que unem esforço e alegria. Essas reuniões comunitárias, como as das casas de farinha em Urucuia, processam até 500 kg de mandioca em um dia, com vizinhos e parentes trocando versos antigos enquanto trabalham.
Dona Rosália, aos 80 anos, em Arapiraca (AL), é um ícone da música regional. Mestre no coco de roda, ela evoca as memórias das “tapagens de taipa”, ritos onde o barro era moldado ao ritmo de cantos para erguer paredes. As destaladeiras de fumo na mesma região também utilizam a música para dar vida à tarefa que sustenta a agricultura familiar.
Faxinal do Emboque e a tradição polonesa em Minas
Na comunidade do Faxinal do Emboque, no Paraná, Nelson Przyvitowski mantém vivo o costume ancestral do assobio, uma companhia que dita o compasso das tarefas, do arar da terra ao cuidado com os animais. Ao lado de sua esposa, Marli, ele preserva o folclore polonês em um barracão centenário, operando máquinas manuais de madeira e entoando canções que narram a vida de seus antepassados.
Apesar da forte ligação com a tradição, a modernidade se faz presente. Marli utiliza a internet para buscar receitas e fórmulas de produtos de limpeza que ela produz e comercializa. Essa fusão entre o antigo e o novo demonstra a capacidade de adaptação e renovação da vida no campo.
Central Veredas: Cantos que aliviam a alma e geram renda
Em Minas Gerais, na região de Arinos, o grupo Central Veredas une bordadeiras e fiandeiras em torno do canto coletivo. Elas relatam que essa prática ajuda a dissipar a ansiedade e a esquecer problemas domésticos, criando um ambiente de apoio mútuo.
Composto por 160 mulheres, a associação mapeou mais de 250 canções de trabalho na região. Além do valor cultural, essa união gera um impacto econômico significativo, faturando cerca de R$ 350 mil por ano e beneficiando uma rede de cooperação que envolve fiandeiras, tingideiras, tecelãs e bordadeiras.
A universalidade dos cantos de trabalho e a conexão com o gado
Para o professor Iván García, da Universidade Nacional Autônoma do México, os cantos de trabalho representam a origem da poesia. Essa forma de expressão é encontrada em todo o mundo, como na famosa canção mexicana “La Bamba”, inspirada na sincronia dos marinheiros, que une a força coletiva e torna o trabalho mais tolerável.
Na Venezuela, os cantos de ordenha acalmam o rebanho e estabelecem um diálogo entre o ordenhador e as vacas, muitas vezes tratadas como membros da família. Um fenômeno similar ocorre no Brasil com o aboio, utilizado pelos criadores de gado para guiar os animais, transmitindo paz e energia, segundo a pesquisadora Mattar.
Na Bahia, o agricultor Alvino Dias renova a tradição das “chulas”, cantigas de trabalho que agora abordam temas contemporâneos, como o impacto do WhatsApp e do celular na rotina do campo, mostrando a constante evolução dessa rica manifestação cultural.