Galípolo desmistifica: Pagar juros acima do CDI não é crime; BC explica liquidação do Banco Master

Galípolo: Pagar juros acima do CDI não é crime, mas foco em ativos é crucial

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, esclareceu nesta quarta-feira (24) que a prática de oferecer remunerações acima do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) por parte de instituições financeiras não configura, por si só, um crime ou motivo para intervenção. A declaração foi feita durante sua participação em um evento promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e abordou a recente liquidação do Banco Master.

Galípolo enfatizou que não existe regulamentação que impeça bancos de captarem recursos com taxas de juros mais elevadas. Segundo ele, a comoção pública em torno do caso do Banco Master foi desproporcional ao tamanho da instituição e que o debate deveria ter se concentrado na qualidade dos ativos do banco, e não unicamente no custo de captação.

O presidente do BC explicou que o modelo de negócios bancário depende de um equilíbrio saudável entre o que a instituição paga aos seus investidores e o que recebe dos tomadores de crédito. Mesmo sem novas captações, um banco pode manter sua solvência se essa estrutura estiver bem organizada, com os empréstimos concedidos retornando para cobrir os passivos.

A intervenção no Banco Master, segundo Galípolo, foi motivada por uma combinação de dificuldades de liquidez, dúvidas sobre a qualidade dos ativos e suspeitas envolvendo suas carteiras de crédito, o que levou a uma intensificação da supervisão a partir do final de 2024. A repercussão do caso, que extrapolou o debate financeiro e envolveu autoridades investigativas, foi destacada como um fator que gerou maior atenção pública. Conforme informação divulgada pelo BC, o caso precisa ser analisado com cautela e diferenciado de crises bancárias passadas que envolveram instituições de relevância sistêmica.

O caso Banco Master: liquidez, ativos e a linha tênue da regulação

Galípolo comparou a situação do Banco Master a um time de “terceira divisão”, contrastando-o com crises históricas de bancos como Bamerindus, Econômico e Nacional, que possuíam relevância sistêmica e tornavam os processos de intervenção e liquidação mais complexos. O presidente do BC ressaltou que o debate público se concentrou excessivamente no custo da captação, enquanto os problemas subjacentes estavam na qualidade dos ativos mantidos pela instituição.

A supervisão do Banco Master foi intensificada a partir do fim de 2024, após a identificação de dificuldades de liquidez, dúvidas sobre a qualidade dos ativos e suspeitas em carteiras de crédito. Galípolo reiterou que a oferta de juros acima do CDI, por si só, não é motivo para intervenção, mas sim a combinação de fatores que comprometem a saúde financeira da instituição.

Política Monetária: cautela e a busca pela convergência da inflação

Abordando a política monetária, Galípolo afirmou que a decisão de manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, na última reunião do Copom, e as sinalizações de corte a partir de março não devem ser interpretadas como uma “volta da vitória” no combate à inflação. O Banco Central entrou em uma fase de **calibragem da política monetária**, onde o foco é a observação atenta dos dados econômicos.

O objetivo é ajustar o grau de restrição necessário para garantir a convergência da inflação à meta estabelecida. Galípolo reconheceu a melhora no ambiente inflacionário desde o fim do ciclo de alta dos juros, com avanços tanto nas expectativas quanto na inflação corrente. No entanto, ele destacou a **resiliência da atividade econômica**, que se mostrou mais forte do que o esperado, mesmo com a Selic em patamar restritivo.

Expectativas de inflação e a necessidade de parcimônia nos juros

O presidente do BC ressaltou que o Banco Central não persegue um nível específico de taxa de juros real, mas ajusta a política monetária com base na leitura dos dados. “O ponto pra gente é menos sobre isso e mais reforçar a parcimônia, a cautela que a gente vai ter para ir colhendo os dados e podendo dosar o nível de restrição da política monetária pra gente ter segurança que a gente pode produzir uma convergência da inflação para a meta”, declarou Galípolo.

Ele também expressou preocupação com as **expectativas de inflação**, que seguem acima da meta, especialmente em horizontes mais longos. “Incomoda também bastante a gente, a gente vê essa desancoragem nos horizontes mais longos”, afirmou. Esse cenário reforça a necessidade de uma estratégia gradual e cuidadosa na condução dos juros, visando garantir a estabilidade de preços e a confiança na economia brasileira.

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