Saks Global Entra com Pedido de Recuperação Judicial nos EUA em um dos Maiores Colapsos do Varejo Pós-Pandemia
A Saks Global, renomado grupo de lojas de luxo, entrou com pedido de proteção contra falência nos Estados Unidos. A notícia, divulgada na noite de terça-feira (13), marca um dos mais significativos colapsos no setor de varejo desde o início da pandemia de Covid-19, segundo informações da Reuters.
O pedido de recuperação judicial ocorre pouco mais de um ano após a formação da Saks Global, um acordo que uniu três grandes nomes do varejo de alto padrão americano: Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus. A iniciativa visava fortalecer o grupo, mas acabou elevando consideravelmente seu endividamento.
Apesar da gravidade da situação, a empresa anunciou na manhã de quarta-feira (14) que suas lojas físicas continuarão operando normalmente. A manutenção das atividades foi viabilizada pela obtenção de um novo financiamento de emergência no valor de US$ 1,75 bilhão.
Essa medida, juntamente com a nomeação de um novo diretor executivo, busca trazer estabilidade e reestruturar a companhia. Conforme informações divulgadas pela Reuters, o processo judicial concede à Saks Global um período para reorganizar suas dívidas ou encontrar um novo comprador, sob o risco de, eventualmente, fechar suas portas.
Nova Liderança e Financiamento para Salvar o Gigante do Luxo
Para liderar a reestruturação, Geoffroy van Raemdonck, ex-CEO da Neiman Marcus, assume o cargo de CEO, substituindo Richard Baker. Baker foi o principal arquiteto da estratégia de aquisições que resultou no alto endividamento da empresa. Ele também liderou a compra da Neiman Marcus pela Hudson’s Bay Co, controladora da Saks desde 2013, em 2024.
A nova estrutura de liderança inclui também Darcy Penick e Lana Todorovich, ambas ex-executivas da Neiman Marcus, que ficarão responsáveis, respectivamente, pela área comercial e pelas parcerias com outras marcas. A nomeação visa trazer expertise para a gestão e desenvolvimento do negócio.
O novo acordo de financiamento é crucial para a sobrevivência da Saks Global. Ele prevê uma injeção imediata de US$ 1 bilhão, proveniente de um empréstimo concedido por um grupo de investidores. Adicionalmente, um financiamento de US$ 240 milhões será disponibilizado mediante garantias sobre os ativos da empresa.
Após a conclusão do processo de recuperação judicial, a Saks Global poderá receber mais US$ 500 milhões desses mesmos investidores, reforçando seu caixa e capacidade operacional.
Histórico de Dificuldades e o Impacto da Concorrência Online
A Saks Global, historicamente conhecida por atrair uma clientela abastada e celebridades, como Gary Cooper e Grace Kelly, tem enfrentado desafios crescentes. A pandemia de Covid-19 intensificou a concorrência do comércio eletrônico, e muitas marcas de luxo passaram a vender seus produtos diretamente aos consumidores, contornando os varejistas tradicionais.
A primeira loja Saks Fifth Avenue, inaugurada em 1867 por Andrew Saks, um pioneiro do varejo americano, sempre foi sinônimo de marcas renomadas como Chanel, Cucinelli e Burberry. No entanto, a capacidade da empresa de manter seus estoques se viu comprometida devido à dificuldade em pagar fornecedores, que começaram a reter mercadorias.
A escassez de produtos nas prateleiras afastou consumidores, que buscaram alternativas em concorrentes como a Bloomingdale’s, que registrou boas vendas em 2025. Analistas apontam que, embora os consumidores de alto poder aquisitivo continuem comprando, a Saks Global perdeu espaço nesse mercado.
Dívidas Bilionárias e Credores de Peso no Setor de Luxo
Em documentos apresentados à Justiça americana, a Saks Global estima que seus ativos e dívidas variam entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões. O valor expressivo das obrigações financeiras é um dos principais fatores que levaram à atual situação.
O negócio que formou a Saks Global, avaliado em US$ 2,7 bilhões, foi financiado majoritariamente por dívidas e investimentos de empresas como Amazon, Salesforce e Authentic Brands. A estratégia, embora visasse fortalecer o grupo, resultou em um endividamento excessivo em um cenário de desaceleração global nas vendas de produtos de luxo.
A empresa recentemente vendeu o imóvel da loja Neiman Marcus Beverly Hills e tentou vender parte da loja Bergdorf Goodman para reduzir suas dívidas. Em 30 de dezembro, a companhia não conseguiu honrar um pagamento de mais de US$ 100 milhões em juros de seus títulos. Entre os credores listados estão grandes marcas de luxo, como Chanel (com uma dívida de US$ 136 milhões), Kering, proprietária da Gucci (US$ 60 milhões), e LVMH, o maior grupo de luxo do mundo (US$ 26 milhões).
A Saks Global calcula ter entre 10 mil e 25 mil credores no total. A empresa solicitou à Justiça um adiamento de 45 dias para apresentar suas demonstrações financeiras, com prazo até 13 de março de 2026, demonstrando a complexidade da reestruturação financeira em andamento.