Europa enfrenta dilema econômico com euro valorizado e crescimento modesto, enquanto o Banco Central Europeu monitora de perto os desdobramentos para as exportações e a inflação.
A economia europeia demonstrou resiliência ao final de 2025, superando as incertezas geradas pelas ameaças de tarifas dos Estados Unidos. No entanto, um novo desafio surge no horizonte: a valorização do euro em relação ao dólar, um cenário que pode impactar negativamente o desempenho das exportações do bloco.
Dados recentes da Eurostat revelaram que a Zona do Euro, composta por 21 países, registrou um crescimento de 0,3% nos últimos três meses de 2025, mantendo o ritmo do trimestre anterior. Em comparação com o mesmo período de 2024, a alta foi de 1,3%, um desempenho que afastou os temores de recessão que pairavam no início do ano.
A ameaça de tarifas elevadas por parte dos Estados Unidos, que poderia ter devastado o comércio, foi contida por um acordo que estabeleceu um teto de 15% sobre produtos da União Europeia. Apesar de não ser o cenário ideal para os negócios, a previsibilidade permitiu que as empresas mantivessem seus planejamentos. Essa segurança, contudo, foi momentaneamente abalada por novas ameaças de tarifas, posteriormente recuadas, conforme informação divulgada pela agência de estatísticas da União Europeia, Eurostat.
Setor de Serviços Impulsiona, Mas Exportações Sentem o Peso do Euro Forte
O setor de serviços europeu, que abrange desde salões de beleza a serviços médicos, apresentou um crescimento moderado, impulsionado pela pesquisa da S&P Global com gerentes de compras. As exportações, por outro lado, sofreram uma queda significativa, enquanto a indústria, apesar de ainda apresentar um desempenho inferior, mostrou sinais de melhora ao final de 2025.
A inflação em baixa, atingindo 1,9% em dezembro após um pico preocupante entre 2022 e 2023, juntamente com o aumento dos salários, tem proporcionado aos consumidores um maior poder de compra e uma disposição renovada para gastar. Essa combinação de fatores internos tem sido um dos pilares para a estabilidade econômica recente.
Dólar em Queda e a Pressionada Política Monetária do Banco Central Europeu
O cenário externo apresenta um novo desafio com a acentuada desvalorização do dólar frente ao euro. A moeda americana atingiu seu nível mais fraco em quatro anos e meio, tornando as exportações europeias menos competitivas em mercados internacionais cruciais. A fraqueza do dólar é atribuída a preocupações com o impacto das tarifas de Trump no crescimento econômico e à instabilidade gerada por seus ataques ao presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, que poderiam minar o papel do banco central dos EUA no combate à inflação e na proteção do valor da moeda.
O euro, em contrapartida, valorizou-se 14,4% contra o dólar nos últimos 12 meses, sendo negociado a US$ 1,19 na sexta-feira. Analistas apontam que, caso essa tendência de enfraquecimento do dólar persista, o Banco Central Europeu (BCE) poderá considerar a redução das taxas de juros ainda este ano, com o objetivo de estimular a economia. A próxima reunião de política monetária do BCE está agendada para quinta-feira, mas não se esperam mudanças nas taxas neste encontro.
Alemanha: Sinais de Recuperação, Mas Desafios Estruturais Persistem
A Alemanha, a maior economia da Zona do Euro, apresentou uma melhora em seu crescimento trimestral, registrando 0,3% no último trimestre de 2025, o melhor desempenho em três anos. Apesar deste avanço, o país ainda enfrenta sérias dificuldades tanto no curto quanto no longo prazo. O governo alemão revisou para baixo sua projeção de crescimento para este ano, de 1,3% para 1%, refletindo os desafios persistentes.
Entre os obstáculos que a Alemanha enfrenta, destacam-se os preços mais elevados de energia, decorrentes da perda do fornecimento de gás natural russo devido à guerra na Ucrânia, a escassez de mão de obra qualificada e o aumento da concorrência chinesa em setores exportadores vitais, como o automobilístico e de máquinas industriais. Anos de subinvestimento em infraestrutura e um excesso de burocracia também contribuem para um cenário de crescimento limitado.
Crescimento da União Europeia como um Todo
No contexto da União Europeia como um todo, composta por 27 países, o crescimento no quarto trimestre de 2025 foi de 0,3%, e de 1,4% em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. É importante notar que nem todos os membros da UE utilizam o euro como moeda oficial, sendo a Bulgária o 21º país a adotar a moeda comum em janeiro.