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México: O Ganhador Inesperado das Tarifas de Trump e o Futuro Incerto do T-MEC

México se consolida como maior exportador para os EUA, mas futuro do T-MEC gera incertezas

A política tarifária agressiva do ex-presidente Donald Trump, que visava reequilibrar as relações comerciais dos Estados Unidos, acabou por impulsionar o México como um dos principais beneficiados. Apesar das incertezas, o país vizinho registrou um aumento significativo em suas exportações para o mercado americano, em grande parte devido às isenções e ao Acordo Estados Unidos-México-Canadá (T-MEC).

O chamado “Dia da Liberação”, em abril do ano passado, marcou o anúncio de novas tarifas de importação por parte de Trump. No entanto, México e Canadá, parceiros comerciais cruciais, foram poupados da maioria das imposições, garantindo um alívio temporário e a manutenção da confiança de investidores.

Com isso, o México não apenas manteve seu ritmo de exportações, mas viu um crescimento de quase 6% para os Estados Unidos, consolidando sua posição como um dos “ganhadores inesperados” dessa política, conforme apontado pelo The Wall Street Journal. Especialistas indicam que a reconfiguração do mercado global e a adaptação às políticas de Trump foram determinantes.

Segundo Erica York, analista do Tax Foundation, uma das principais isenções às tarifas anunciadas por Trump foi concedida a produtos que atendem às exigências do T-MEC. Esse benefício impulsionou as transações sob o acordo, tornando o México um destino mais atraente para exportações com tarifas reduzidas. Conforme dados do Departamento de Comércio americano, o México registrou um crescimento geral de 5,66% em suas exportações para os EUA em 2025, contrastando com a queda de 6,19% observada nas exportações canadenses no mesmo período.

O Impacto Estratégico do T-MEC

O Tratado de Livre Comércio entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC) tornou-se um pilar fundamental para o bom desempenho comercial da América do Norte. Mario Campa, especialista em política econômica da Universidade Columbia, explica que, diante do aumento das tarifas em outros mercados, os compradores americanos tendem a buscar países com alíquotas menores, posição que o México soube aproveitar.

Dados do Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM), da Universidade da Pensilvânia, indicam que produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025. Essa taxa, significativamente menor que a de outros parceiros comerciais, como a China (37,1%), é resultado de uma combinação de benefícios do T-MEC e negociações estratégicas para condições mais favoráveis.

Embora o Canadá tenha apresentado uma tarifa de importação efetiva ainda menor (3,9%), o volume de exportações mexicanas superou o canadense, que, aliás, caiu no período. O crescimento mexicano é atribuído, em parte, à mudança de estratégia de muitos fabricantes que antes preferiam pagar tarifas menores a cumprir as exigências burocráticas do T-MEC. Com o aumento das tarifas globais, tornou-se mais vantajoso aderir ao acordo.

Setores Específicos e a Resiliência Mexicana

Apesar do sucesso geral, nem todos os setores mexicanos prosperaram igualmente. O setor automotivo, por exemplo, registrou um aumento modesto de 0,9% em 2025, abaixo das expectativas, mesmo com tarifas direcionadas apenas a componentes não fabricados nos EUA. Setores como aço e alumínio, sujeitos a tarifas de 25%, viram suas exportações caírem.

A migração de empresas para o México, impulsionada pelo fenômeno do “nearshoring” durante a guerra comercial anterior com a China, também contribuiu para a consolidação do país como principal parceiro comercial dos EUA. A proximidade geográfica e a mão de obra qualificada tornaram o México uma alternativa atraente para a produção destinada ao mercado americano.

O Futuro Incerto do T-MEC e a Busca por Diversificação

Apesar do cenário favorável recente, o futuro do T-MEC paira em incerteza. Declarações recentes de Donald Trump, que considerou o acordo “irrelevante”, geraram apreensão sobre sua continuidade e possíveis renegociações. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, expressou confiança na manutenção da relação comercial, destacando a profunda integração industrial entre os países.

Enquanto isso, o Canadá tem buscado fortalecer laços com a China, assinando novos acordos comerciais. Essa movimentação, segundo Mario Campa, pode ser vista como uma “cobertura ou antecipação” diante da renegociação do T-MEC, sinalizando um possível cenário de instabilidade para o bloco.

Diante desse quadro, o México precisa considerar planos alternativos para diversificar seu comércio e reduzir a dependência dos Estados Unidos. O “Plano México”, anunciado pela presidente Sheinbaum, representa uma aposta ousada nesse sentido, buscando novos mercados e fortalecendo parcerias estratégicas. A capacidade do país em navegar por essas incertezas definirá seu papel no cenário comercial global nos próximos anos.

De Província Esquecida ao Gigante Econômico: A Jornada de São Paulo para se Tornar o Estado Mais Rico do Brasil

São Paulo: De Periferia a Motor do Brasil, a Ascensão de um Gigante Econômico

A cidade de São Paulo, hoje um centro vibrante com mais de 11 milhões de habitantes, completa 472 anos como símbolo do estado mais rico do Brasil. Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3,5 trilhões em 2024, São Paulo supera economias de países como a Argentina e triplica a riqueza do segundo colocado no ranking nacional, o Rio de Janeiro. Essa impressionante transformação, no entanto, contrasta com o passado modesto da província.

Até meados do século XIX, São Paulo era uma região de pouca expressão econômica, política e demográfica. O primeiro Censo do Brasil, em 1872, registrou apenas cerca de 30 mil habitantes na capital paulista, um número ínfimo comparado aos 270 mil da então capital do Império, Rio de Janeiro. A ascensão de São Paulo é, nas palavras do historiador Rafael Cariello, “o tipo de coisa que acontece pouco na história econômica mundial”.

A trajetória de São Paulo, de uma província periférica a uma potência econômica, é marcada por uma série de fatores cruciais. A superação de barreiras geográficas, a adaptação a ciclos econômicos e decisões políticas estratégicas foram fundamentais nesse processo. Conforme informações divulgadas por especialistas à BBC News Brasil, essa metamorfose envolveu não apenas o desenvolvimento da infraestrutura, mas também a construção de um “poder simbólico”.

Desafios Geográficos e o Impulso do Café

Um dos primeiros grandes obstáculos para o desenvolvimento de São Paulo era a **Serra do Mar**, apelidada de “a muralha” pelos colonizadores portugueses. Essa barreira natural dificultava o escoamento da produção para o porto de Santos, encarecendo o transporte e limitando o potencial econômico da província, que possuía solos férteis. A primeira estrada pavimentada, a Calçada do Lorena, concluída em 1792, era estreita e sinuosa, com 50 km e 133 curvas.

A expansão do cultivo de café no Brasil, no entanto, começou a mudar esse cenário. Inicialmente concentrada no Vale do Paraíba, a produção paulista só compensava perto do litoral. A travessia era feita por tropas de mulas, um método lento e caro. A mudança começou a ocorrer com uma **descentralização política** no Império, que permitiu às províncias criarem suas próprias assembleias legislativas e sistemas de arrecadação de impostos.

São Paulo decidiu investir pesadamente na melhoria de suas estradas. Através da criação de dezenas de pedágios, o dinheiro arrecadado foi direcionado para a construção de vias mais eficientes, como a Estrada da Maioridade, inaugurada em 1846. Essa medida **barateou o transporte** e possibilitou que o café avançasse para o interior do estado, impulsionando a produção em regiões como Campinas, Limeira e Rio Claro. O pedágio chegou a representar quase metade da arrecadação da província, demonstrando a prioridade dada à infraestrutura.

A Chegada da Ferrovia e a Revolução da Imigração

A grande revolução nos transportes ocorreu em 1867 com a chegada da ferrovia. A **São Paulo Railway Company** ligou a capital paulista a Jundiaí, com investimentos de capital inglês e dos próprios produtores de café. Essa nova infraestrutura foi crucial para escoar a crescente produção até o Porto de Santos, coincidindo com a expansão do consumo de café em países como os Estados Unidos.

Paralelamente, a proibição do tráfico transatlântico de escravizados em 1850 abriu espaço para o incentivo à **imigração**, especialmente de europeus. São Paulo passou a atrair milhões de pessoas, muitas delas recebidas na antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás. Entre meados do século XIX e o final dos anos 1970, cerca de 3 milhões de imigrantes chegaram ao estado, triplicando a população de São Paulo em poucas décadas.

Esses imigrantes não apenas supriram a demanda de mão de obra nas lavouras de café, mas também dinamizaram a economia local. Eles criaram um **mercado consumidor** e empreenderam em pequenos negócios, impulsionando o surgimento das primeiras indústrias no estado. A transformação demográfica e econômica de São Paulo entre 1872 e a década de 1950 é resultado direto desse fluxo migratório, que se expandiu para os campos econômico, social e cultural.

Da Crise de 1929 à Diversificação Econômica

A partir do século XX, São Paulo também se tornou um polo de atração para migrantes de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste. Em 1929, pela primeira vez, o número de brasileiros chegando ao estado superou o de estrangeiros. A crise econômica mundial de 1929 e a consequente dificuldade do Brasil em importar produtos industrializados impulsionaram ainda mais a indústria paulista.

Com uma base industrial já estabelecida, São Paulo pôde responder à demanda reprimida. A política de proteção à indústria nacional adotada por Getúlio Vargas a partir de 1930 beneficiou significativamente a indústria paulista. Nas décadas seguintes, o café começou a ceder espaço como principal motor da economia, e o estado passou a **incentivar outras atividades econômicas**.

A partir dos anos 1970, iniciou-se um processo de diversificação econômica e agrícola. Houve um plano de erradicação de cafezais e um incentivo a outros produtos, como a industrialização e o setor de petróleo. O café, que antes era o carro-chefe da economia paulista, foi gradualmente perdendo sua posição central, abrindo caminho para um modelo econômico mais diversificado e robusto.

O Poder Simbólico e a Construção de uma Identidade

A ascensão de São Paulo também é explicada por fatores menos tangíveis. Uma das teorias sugere que a relativa ausência de uma lógica patrimonialista no estado, diferentemente de outras regiões mais ligadas ao projeto colonial português, permitiu uma **iniciativa capitalista mais autônoma**. Isso teria criado uma “institucionalidade menos parasitária da atividade econômica”, segundo a professora Elizabeth Balbachevsky da USP.

No entanto, o sociólogo Jessé Souza contesta essa visão, argumentando que o diferencial paulista foi primordialmente **simbólico**. Após a derrota no levante de 1932, a elite paulista teria buscado consolidar seu poder político e econômico através da construção de uma narrativa de superioridade, resgatando a figura dos Bandeirantes e associando São Paulo a uma “Europa no meio da África”.

Segundo Souza, a elite paulista utilizou o poder simbólico, disseminado por instituições como a USP, jornais e rádios, para se legitimar como um modelo a ser seguido. Essa narrativa, que associava São Paulo à virtude, ao trabalho e à modernidade, foi fundamental para **naturalizar um projeto de dominação** e justificar a exclusão de grande parte da população brasileira do acesso ao Estado e aos recursos públicos, baseando-se em discursos racistas e de incapacidade popular.