Chope no Brasil: A História da Bebida que Ganhou o “Borogodó” Carioca e Conquistou o País

A Fascinante Jornada do Chope no Brasil: Da Europa ao Coração Carioca

A palavra mágica “chope” ecoa através das gerações brasileiras, presente em peças teatrais do século 19 e em canções de rock do século 20. Essa bebida, sinônimo de encontros, futebol e samba, é a cerveja não pasteurizada servida na hora, sob pressão, e que se tornou um ícone nacional. Mas como esse líquido dourado, trazido por europeus, ganhou um sabor e um jeito tão brasileiros?

O chope, com suas variações de clara ou escura, com ou sem colarinho, segue uma regra sagrada em qualquer boteco do país: deve ser servido estupidamente gelado. Essa característica, somada a um ambiente descontraído, o coloca em disputa acirrada com a cerveja engarrafada pelo título de bebida nacional.

No Centro do Rio de Janeiro, o Bar Amarelinho, fundado em 1921, ostenta o título de “o chope mais gelado da Cinelândia”. Seu segredo, segundo o gerente João Batista Alves Fernandes, reside em uma serpentina de cobre de 200 metros que garante um “colarinho cremoso”. O bar resistiu a obras e pandemias, atraindo personalidades como presidentes e artistas, que o acompanham com petiscos como frango à passarinha e carne de sol.

A história do chope no Brasil remonta a 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa. Dom João mandou instalar as primeiras cervejarias na Serra Fluminense, buscando um clima mais ameno para controlar a fermentação, conforme explica Carlo Bressiani, diretor da Escola Superior de Cerveja e Malte. Naquela época, não havia distinção entre cerveja e chope, pois a pasteurização só se popularizou na segunda metade do século 19.

Origens e Evolução do “Schoppen” Brasileiro

O nome “chope” tem origem na palavra alemã “Schoppen”, que significa “copo de cerveja”. Inicialmente, o termo se referia ao recipiente, e foi assim que apareceu pela primeira vez na imprensa brasileira em 1875, em um anúncio de prêmios de turfe. A bebida, no entanto, permaneceu por muito tempo como um artigo de luxo, acessível apenas às classes mais abastadas.

A produção de cerveja no Brasil ganhou impulso com a chegada de migrantes alemães a partir de 1824, e em 1836, o “Jornal do Commercio” registrou a primeira menção à “cerveja brasileira”, marcando o início da produção industrial. Com a urbanização e o crescimento do setor de bebidas, o chope se consolidou como um centro de subcultura, especialmente no Rio de Janeiro.

O “Borogodó” Carioca e o Sabor Inconfundível do Chope

Enquanto outras capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador também desfrutam do chope, foram os cariocas que o elegeram como parte integrante de um estilo de vida. O chope no Rio de Janeiro está intrinsecamente ligado ao bate-papo com amigos, à convivência com vizinhos, à paquera e à torcida pelo time do coração, o que se convencionou chamar de “borogodó”.

As primeiras cervejas brasileiras, com maior acidez e contaminação microbiológica, dificilmente agradariam ao paladar atual. A “melhor cerveja já produzida é a cerveja de hoje”, afirma Bressiani. O chope moderno, por não passar pela pasteurização, mantém uma “cerveja viva”, mais saborosa. Contudo, a refrigeração intensa, tão apreciada pelos brasileiros, pode atenuar a percepção de sabor e aroma, diferentemente do consumo em países do hemisfério norte, onde é apreciado em temperatura ambiente.

O Chope na Cultura Pop e no Mercado Atual

O chope transcendeu o universo dos bares e se imortalizou na cultura pop. Em 1970, a banda Blitz lançou a icônica canção “Você não soube me amar”, que retrata o chope como um símbolo do “underground do Rio de Janeiro” e do cardápio acessível da juventude. “Chope e batata frita eram o cardápio da mesada, era o que dava para a gente oferecer à namorada”, explica o compositor Evandro Mesquita.

O mercado cervejeiro brasileiro expandiu-se significativamente após a Segunda Guerra Mundial, com a estabilização da moeda nos anos 1990 e a fusão da Brahma e Antarctica na Ambev. Essa expansão, aliada a investimentos massivos em marketing, posicionou o Brasil como o terceiro maior mercado global de cerveja. Apesar disso, o consumo per capita brasileiro ainda é inferior ao de países como a Chéquia.

Apesar de sua popularidade, o chope ainda é visto como uma bebida refrescante no Brasil, contrastando com o consumo europeu. Essa característica o coloca em vantagem contra destilados e vinhos, que não combinam com baixas temperaturas. O chope, portanto, é mais que uma bebida, é um reflexo da cultura e do estilo de vida brasileiro, com um sabor que conquista a todos.

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