China afirma que acordos comerciais com o Canadá não visam terceiros países, em resposta à ameaça de Donald Trump de impor tarifas de 100% sobre importações canadenses.
O Ministério das Relações Exteriores da China se manifestou nesta segunda-feira (24) sobre a recente ameaça do ex-presidente americano Donald Trump, que declarou que os Estados Unidos imporiam “tarifas de 100%” sobre as importações canadenses caso um acordo comercial entre Canadá e China fosse finalizado.
A declaração chinesa enfatiza a importância de relações comerciais baseadas na cooperação e em uma mentalidade de “ganha-ganha”, em contraposição à abordagem de “soma zero” defendida por alguns setores nos Estados Unidos.
A posição de Pequim surge em um momento delicado, após o anúncio de uma nova parceria estratégica entre Canadá e China, marcada pela visita do primeiro-ministro canadense Mark Carney a Pequim. Esta visita histórica, a primeira de um líder canadense à China em oito anos, sinaliza uma aproximação em áreas como a redução de tarifas sobre a canola canadense e a entrada de carros elétricos chineses no mercado do Canadá.
Conforme informação divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores da China, o porta-voz Guo Jiakun afirmou durante uma coletiva de imprensa regular que “a China entende que os países devem conduzir suas relações uns com os outros com uma mentalidade de ganha-ganha, em vez de soma zero, e por meio da cooperação, e não do confronto”.
Trump Ameaça Tarifas de 100% Sobre Importações Canadenses
No último sábado (24), Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, expressou publicamente sua insatisfação com a possibilidade de um acordo comercial entre Canadá e China. Trump ameaçou impor “tarifas de 100%” sobre as importações canadenses para os EUA, caso o acordo fosse concretizado.
Em sua plataforma Truth Social, Trump declarou: “Se Carney pensa que vai transformar o Canadá em um ‘porto de descarga’ para a China enviar mercadorias e produtos para os Estados Unidos, está muito enganado”. A declaração reflete a preocupação de Trump de que tal acordo pudesse beneficiar a China em detrimento dos interesses americanos.
Nova Parceria Estratégica entre Canadá e China
A ameaça de Trump ocorreu logo após o anúncio de uma nova parceria estratégica entre Canadá e China, selada durante a visita do primeiro-ministro canadense Mark Carney a Pequim. Esta visita representa um marco, sendo a primeira de um líder canadense à China em oito anos.
Espera-se que, como parte deste acordo, a China reduza as tarifas impostas sobre a canola canadense. Paralelamente, o Canadá planeja permitir a entrada de aproximadamente 50 mil carros elétricos chineses em seu mercado, com uma tarifa reduzida de 6,1%, significativamente menor que a alíquota atual de 100%.
Carney busca reconstruir os laços comerciais com a China, o segundo maior parceiro comercial do Canadá após os Estados Unidos, após meses de esforços diplomáticos. Ele explicou que a entrada inicial de veículos elétricos chineses será limitada a 49 mil unidades com a tarifa de 6,1%, sob os termos de nação-mais-favorecida.
Esta medida contrasta com a tarifa de 100% imposta anteriormente pelo ex-primeiro-ministro Justin Trudeau em 2024, em resposta a tarifas semelhantes dos EUA. Em 2023, a China exportou 41.678 veículos elétricos para o Canadá.
“Esse é um retorno aos níveis anteriores aos recentes atritos comerciais, mas sob um acordo que promete muito mais para os canadenses”, afirmou Carney aos repórteres durante sua viagem à China. Ele adicionou que a cota para veículos elétricos chineses aumentará gradualmente, atingindo cerca de 70.000 unidades em cinco anos.
Carney justificou a decisão como uma estratégia para o desenvolvimento do setor de veículos elétricos canadense, buscando aprender com parceiros inovadores, acessar cadeias de suprimentos e aumentar a demanda local. Essa justificativa difere da de Trudeau, que visava proteger os produtores nacionais contra fabricantes chineses subsidiados.
Repercussões e Divergências nas Relações Comerciais
O relaxamento das tarifas sobre carros elétricos canadenses representa um distanciamento da política adotada pelos Estados Unidos. Alguns membros do gabinete de Donald Trump criticaram a decisão antes de uma esperada revisão do acordo comercial entre EUA, Canadá e México.
No entanto, na semana passada, o próprio Trump havia expressado apoio a Carney, dizendo: “É isso que ele deveria estar fazendo. É bom que ele assine um acordo comercial. Se você conseguir um acordo com a China, deve fazer isso”, conforme relatado por Trump aos repórteres na Casa Branca.
A decisão gerou críticas internas, como a do primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, província canadense com forte indústria automobilística. Ford criticou o acordo, afirmando que o governo federal estava “convidando uma enxurrada de veículos elétricos baratos fabricados na China sem nenhuma garantia real de investimentos iguais ou imediatos na economia, no setor automotivo ou na cadeia de suprimentos do Canadá”, conforme postagem no X.
Impacto nas Exportações Canadenses e Reversão de Tarifas Chinesas
Em retaliação às tarifas impostas por Justin Trudeau, a China aplicou tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas e alimentícios canadenses em março, incluindo óleo e farinha de canola, seguidas por tarifas sobre sementes de canola em agosto. Isso resultou em uma queda de 10,4% nas importações de produtos canadenses pela China em 2025.
Com o novo acordo, o Canadá espera que a China reduza as tarifas sobre suas sementes de canola para uma taxa combinada de cerca de 15%, em comparação com os atuais 84%, a partir de 1º de março. Além disso, tarifas antidiscriminatórias sobre farinhas de canola, lagostas, caranguejos e ervilhas canadenses devem ser removidas a partir da mesma data até o final do ano.
Segundo Carney, esses acordos devem destravar cerca de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses. O Ministério do Comércio da China confirmou em comunicado que o país está ajustando medidas antidumping sobre a canola e medidas antidiscriminatórias sobre produtos agrícolas e aquáticos canadenses, em resposta à redução das tarifas de veículos elétricos pelo Canadá.