Brasil registra recorde de afastamentos por transtornos mentais em 2025, afetando mais de 2 mil profissões
O cenário do mercado de trabalho brasileiro em 2025 apresentou um dado alarmante: mais de 500 mil benefícios foram concedidos pelo Ministério da Previdência Social devido a transtornos mentais. Este número representa um recorde histórico e é a segunda vez consecutiva que o país atinge essa marca, evidenciando um problema crescente de saúde mental entre os trabalhadores.
A análise abrange mais de 2 mil profissões que registraram afastamentos por questões de saúde mental. Profissões que exigem contato direto com o público, como vendedores do comércio varejista, faxineiros e auxiliares de escritório, figuram entre as mais afetadas, demonstrando que o impacto transcende setores específicos e atinge diversas camadas da força de trabalho.
Especialistas apontam que a combinação de fatores como contratos de trabalho frágeis, pressão por metas, longas jornadas e a exposição a riscos, incluindo violência urbana, contribui significativamente para o aumento desses afastamentos. A situação reflete uma questão estrutural na organização do trabalho no país.
Os dados, obtidos com exclusividade pelo g1, foram compilados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), com base em informações do INSS. O levantamento considera o período entre 2012 e 2024, detalhando profissões e o número de licenças concedidas.
Profissões mais afetadas e suas características comuns
No topo da lista de profissões com maior número de afastamentos por transtornos mentais estão ocupações como vendedor varejista, faxineiro, auxiliar de escritório, assistente administrativo e alimentador de linha de produção. Essas funções frequentemente compartilham características que as tornam mais vulneráveis, segundo especialistas ouvidos pelo g1.
Raymundo Lima Ribeiro Júnior, procurador do Ministério Público do Trabalho, explica que a precariedade dos contratos aliada à sobrecarga de trabalho são fatores determinantes. A falta de autonomia do trabalhador, a pressão por resultados e a insegurança gerada pelo medo do desemprego também agravam o quadro, criando um ambiente propício ao desenvolvimento de doenças mentais.
A auditora fiscal do trabalho Odete Cristina Pereira Reis, que coordena a área de Riscos Psicossociais, complementa que o ranking expõe um padrão que vai além de casos isolados. Ela destaca a ausência de autonomia como um agravante crucial, pois limita a capacidade do trabalhador de gerenciar sua própria rotina e de lidar com as demandas do emprego.
Ansiedade e depressão lideram diagnósticos, com aumento expressivo
Em 2025, os transtornos mentais foram responsáveis por mais de 546 mil afastamentos do trabalho no Brasil, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Os diagnósticos mais comuns que levaram a essas licenças foram a ansiedade e a depressão. Os transtornos ansiosos lideraram o ranking, com 166.489 licenças concedidas, seguidos pelos episódios depressivos, com 126.608 afastamentos.
Outros diagnósticos que também apresentaram alta nos afastamentos incluem transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo. Essa escalada em diversas frentes aponta para um problema multifacetado que exige atenção imediata.
É importante notar que os dados se referem ao número de afastamentos, e não ao número de trabalhadores. Uma mesma pessoa pode ter mais de uma licença ao longo do ano, e cada afastamento é contabilizado separadamente. Em média, os afastados permaneceram cerca de três meses afastados, recebendo aproximadamente R$ 2.500.
Mulheres são maioria nos afastamentos, mas recebem menos
As mulheres representam quase 63% do total de afastamentos por transtornos mentais, sendo a maioria entre os beneficiários. No entanto, essa predominância não se reflete na remuneração média. Enquanto os homens recebem, em média, R$ 2.515,58, as mulheres recebem R$ 2.482,91.
A diferença salarial, embora pequena, é um reflexo de desigualdades estruturais persistentes no mercado de trabalho. O Ministério da Previdência Social não disponibilizou recortes por raça ou escolaridade, o que limita uma análise mais aprofundada sobre outros fatores que podem influenciar esses números.
O custo associado a esses afastamentos é significativo, não apenas para os trabalhadores, mas também para a economia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos globalmente a cada ano devido à depressão e ansiedade, resultando em perdas de US$ 1 trilhão anual. No Brasil, transtornos mentais podem custar até 6% da folha de pagamento das empresas.
Medidas de prevenção e o adiamento da NR-1
Diante do cenário preocupante, o Ministério do Trabalho havia anunciado mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaria a contemplar os riscos psicossociais. A atualização visava fiscalizar empresas que expõem trabalhadores a situações de estresse, como metas excessivas, jornadas longas, falta de suporte e assédio moral.
No entanto, a implementação da medida foi adiada. Após pressão de empresas e sindicatos patronais, o governo decidiu postergar o prazo para maio deste ano. Fontes indicam que ainda há pressão para novos adiamentos, com alegações de falta de tempo hábil para as empresas se adaptarem às novas diretrizes.
A demora na aplicação dessas medidas preventivas contribui para a manutenção de um ambiente de trabalho que fomenta o adoecimento mental. A discussão sobre saúde mental no trabalho ganha cada vez mais urgência, exigindo ações concretas e efetivas para garantir o bem-estar dos trabalhadores brasileiros.