Aplicativo Chinês “Tá Morto?” Revela Angústia da Solidão Urbana e o Mercado do Medo de Morrer Sozinho

O Fenômeno “Tá Morto?”: Tecnologia como Rede de Segurança em um Mundo Solitário

Em meio a um cenário de crescente isolamento social, um aplicativo chinês com um nome provocativo, “Tá Morto?”, tem ganhado destaque. Ele promete ser uma rede de segurança para pessoas que vivem sozinhas, acendendo discussões importantes sobre a solidão urbana e a busca por amparo na tecnologia.

A China tem testemunhado mudanças significativas em seus modelos sociais. O casamento está em declínio, e a ideia de morar com os pais se torna cada vez menos viável, especialmente nas grandes cidades. Esses fatores contribuem para um aumento do isolamento, criando um terreno fértil para soluções tecnológicas focadas na segurança individual.

Dados oficiais revelam que, em 2024, uma em cada cinco residências chinesas era ocupada por uma única pessoa. Esse número representa um salto expressivo em relação a uma década atrás, quando a taxa era de 15%, o que ajuda a explicar a popularidade de aplicativos voltados para quem vive sozinho.

Apesar do sucesso nas lojas virtuais, o aplicativo “Tá Morto?” suscita reações mistas. Conforme informações divulgadas, o app reflete uma sociedade onde laços familiares tradicionais se enfraqueceram, e soluções digitais tentam preencher as lacunas deixadas pela vida moderna, transformando o medo de morrer sozinho em um novo mercado e em um debate público sobre envelhecimento e segurança pessoal.

Críticas e Controvérsias em Torno do Nome e Serviço

Apesar de sua proposta inovadora, o aplicativo enfrenta críticas. Yaya Song, profissional de tecnologia de 27 anos em Pequim, expressou curiosidade, mas considerou o preço elevado para o serviço oferecido. Para ela, o app só faria sentido se fosse gratuito ou tivesse um custo simbólico. Ela também aponta que, na prática, empregadores costumam notar problemas antes da família, como quando um funcionário falta ao trabalho.

Huang Zixuan, estudante de 20 anos, compartilha a opinião sobre o nome, considerando-o “sombrio” e de mau agouro, algo culturalmente sensível na China. Ele afirma que jamais recomendaria o aplicativo aos seus avós devido a essa percepção.

O Valor Percebido e a Busca por Proteção Simbólica

Por outro lado, outros usuários veem valor na proposta. Sasa Wang, funcionária de escritório de 36 anos, relata que, ao se aproximar dos 40 anos, muitas pessoas pensam mais seriamente no que pode acontecer se algo ocorrer enquanto vivem sozinhas. Para esse público, o aplicativo funciona como uma rede mínima de proteção, mesmo que simbólica.

Em um contexto de laços sociais mais frágeis, a tecnologia surge como um substituto parcial para antigos mecanismos de cuidado coletivo. O debate sobre o aplicativo ganhou ainda mais força quando Hu Xijin, ex-editor-chefe do jornal estatal Global Times, sugeriu publicamente que o nome fosse alterado para “Huozheme” (“Você está vivo?”), uma expressão considerada menos angustiante.

A Empresa Avalia Mudança de Nome e o Debate Cultural

A empresa responsável pelo aplicativo declarou que está avaliando seriamente a possibilidade de mudar o nome. No entanto, muitos internautas defenderam a manutenção do nome original, argumentando que encarar o tema da morte de forma direta é uma maneira honesta de lidar com uma realidade cada vez mais presente. A viralização do aplicativo demonstra como questões antes tratadas no âmbito familiar ou comunitário estão sendo transferidas para a tecnologia.

Tecnologia Preenchendo Lacunas na Sociedade Chinesa Moderna

Na China urbana contemporânea, aplicativos já organizam namoro, trabalho, transporte, alimentação e até cuidados com idosos. Agora, eles também passam a gerenciar o risco de morrer sozinho, transformando uma angústia íntima em um serviço comercial. Ao viralizar, o aplicativo expõe uma questão central: em um país onde a modernização acelerada reconfigurou famílias, rotinas e expectativas, quem cuida de quem quando os laços se desfazem?

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