A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, um potencial colossal que, no entanto, permanece em grande parte subutilizado. Este cenário complexo é moldado por uma infraestrutura defasada e um intrincado jogo geopolítico, especialmente envolvendo os Estados Unidos e a China. A situação atual reflete décadas de dependência econômica do petróleo e as consequências de políticas internas e pressões internacionais.
A nação sul-americana possui cerca de 17% das reservas globais de petróleo, um volume impressionante que supera em quase quatro vezes o dos Estados Unidos. Segundo dados da Energy Information Administration (EIA), as reservas venezuelanas são estimadas em aproximadamente 303 bilhões de barris, posicionando o país à frente de potências como a Arábia Saudita e o Irã. No entanto, grande parte desse petróleo é extrapesado, exigindo tecnologia avançada e investimentos substanciais para sua extração e processamento.
A produção de petróleo, que já atingiu o pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970, sofreu uma queda drástica, chegando a 665 mil barris diários em 2021, conforme dados da Statistical Review of World Energy. Embora tenha havido uma leve recuperação para cerca de 1 milhão de barris por dia no ano passado, este volume representa menos de 1% da produção mundial. A PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, enfrenta cortes orçamentários que afetam a manutenção e os investimentos, agravando o declínio produtivo.
A economia venezuelana é historicamente moldada pelo petróleo. Desde as grandes descobertas nas décadas de 1920 e 1930, o país se consolidou como um dos maiores produtores globais, sendo um dos fundadores da OPEP em 1960. A nacionalização da indústria em 1976, com a criação da PDVSA, estabeleceu um monopólio estatal. Nas décadas seguintes, sob o governo de Hugo Chávez, a receita do petróleo foi amplamente direcionada a programas sociais, com redução de investimentos em outras áreas econômicas, o que aumentou a dependência do setor.
Essa dependência se traduziu em uma vulnerabilidade econômica acentuada. Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas eram de petróleo. A queda na produção, combinada com sanções internacionais, intensificou a crise econômica e a hiperinflação. Em 2019, os preços subiram 344.510%, de acordo com o Banco Central venezuelano, um reflexo direto da crise fiscal e produtiva.
O Interesses dos Estados Unidos e a Influência Chinesa
Os Estados Unidos possuem uma relação de longa data com o petróleo venezuelano, sendo um dos principais compradores antes do endurecimento das sanções em 2019. Atualmente, a Chevron é a única empresa americana com operações no país, operando sob autorização especial de Washington. A estratégia americana, que antes se justificava pelo combate ao narcotrágico, agora revela claros interesses energéticos, visando, segundo especialistas, reduzir os preços dos combustíveis no mercado interno, já que o petróleo venezuelano é compatível com as refinarias dos EUA.
Com as sanções, a Venezuela redirecionou suas exportações, principalmente para a China, em acordos de petróleo por empréstimos. Essa dinâmica intensificou a disputa geopolítica na região. Informações da Reuters indicam que a Venezuela utilizava superpetroleiros para quitar empréstimos com a China. No entanto, o anúncio de um bloqueio por parte dos EUA a embarcações que entram ou saem do país paralisou grande parte dessas exportações, com navios aguardando novas instruções.
O Impacto das Sanções e a Recuperação Econômica
As sanções impostas pelos EUA causaram perdas significativas para a Venezuela. Um estudo do Instituto Tricontinental estima que as sanções levaram a perdas de cerca de US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024, um valor superior ao PIB atual do país, estimado em US$ 108,5 bilhões. Apesar de possuir vastas riquezas naturais, a Venezuela figura entre as menores economias da América Latina, com sua trajetória econômica atrelada às oscilações do mercado de petróleo e às tensões geopolíticas.
Recentemente, o setor de hidrocarbonetos tem impulsionado uma recuperação econômica na Venezuela. O PIB cresceu 7,71% no primeiro semestre de 2025, com o setor petrolífero avançando quase 15%. No terceiro trimestre de 2025, o PIB registrou alta de 8,71% em comparação com o mesmo período de 2024, com a atividade petrolífera crescendo 16,12%. No entanto, essa dependência extrema do petróleo continua sendo um ponto de vulnerabilidade para a economia do país.
Desafios de Infraestrutura e Produção
A infraestrutura da indústria petrolífera venezuelana sofre com anos de subinvestimento e má gestão. A PDVSA, que historicamente era a principal fonte de divisas para o país, teve seu orçamento cortado, o que interrompeu ciclos essenciais de manutenção e investimento. A situação se agravou em 2002, com a nomeação de Gastón Parra para a presidência da empresa, gerando uma greve que paralisou a companhia e resultou na demissão de milhares de funcionários.
Apesar das dificuldades, o petróleo continua sendo o pilar da economia venezuelana. Em 2024, a PDVSA faturou cerca de US$ 17,5 bilhões com exportações, com uma produção média ligeiramente acima de 800 mil barris por dia. As exportações de petróleo responderam por aproximadamente 58% da receita da estatal neste ano. Deste valor, US$ 10,41 bilhões foram destinados ao Tesouro venezuelano em impostos e royalties, segundo a Reuters.