De Resto a Tesouro: Como o Pé de Galinha Virou “Negócio da China” e Impulsionou Exportações Brasileiras

O Pé de Galinha: De Descarte a Forte Moeda de Exportação Brasileira, Impulsionado pela China e África.

O que antes era considerado um simples resto de açougue e frigoríficos, o pé de galinha, hoje, representa um negócio lucrativo e de grande valor para a indústria brasileira. A transformação ocorreu após a China abrir suas portas para a carne de frango brasileira em 2009, criando um mercado consumidor ávido por essa parte do animal.

O impacto financeiro é notável. Em 2023, a indústria nacional faturou impressionantes US$ 221 milhões com a venda de pés de galinha para o mercado chinês. Este valor representa um aumento de 9,5% em relação ao ano anterior, consolidando a China como o principal destino do miúdo brasileiro.

A valorização do pé de galinha não se restringe apenas ao mercado externo. Internamente, o produto também viu seu preço aumentar, refletindo a crescente demanda e a percepção de seu valor gastronômico e industrial. Conforme informações do Safras & Mercado, o preço médio do pé de galinha no atacado em 2026 atingiu R$ 5,75, um aumento de 41,3% em relação a 2020.

Essa ascensão reflete a força da abertura comercial e a capacidade da indústria brasileira de se adaptar e explorar novos nichos. A China, em particular, demonstrou um apetite surpreendente pelo produto, que se tornou um petisco popular, vendido até mesmo em máquinas automáticas. A história do pé de galinha é um exemplo de como um item antes desprezado pode se tornar um ativo econômico significativo, conforme relatado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e pelo Ministério da Agricultura.

A China: Um Mercado Milionário para o Pé de Galinha Brasileiro

O principal destino do pé de galinha exportado pelo Brasil é, sem dúvida, a China. Lá, esse subproduto do frango é consumido como um popular petisco, uma forma de “enganar a fome” e “passar o tempo”, segundo explica a chef Jiang Pu. O processo de consumo envolve “chupar e roer”, o que torna o petisco uma atividade demorada e satisfatória para quem gosta de mastigar.

A versatilidade do pé de galinha na culinária chinesa vai além do petisco. Ele também é utilizado para engrossar caldos e sopas, graças ao seu alto teor de colágeno, conferindo uma textura mais densa e gelatinosa aos preparos. Na China, o produto é facilmente encontrado embalado, temperado e pronto para consumo em lojas e até em máquinas de venda automática em locais de grande circulação.

Ricardo Santin, presidente da ABPA, destaca que a China é o mercado que melhor remunera o pé de galinha, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada. Essa alta valorização impulsiona significativamente o faturamento da indústria brasileira com a exportação deste item.

África do Sul: Uma Segunda Potência Consumidora de Pé de Galinha

A África do Sul surge como o segundo maior mercado comprador de pé de galinha do Brasil, pagando em média US$ 2 mil por tonelada. Embora importe um volume menor que a China, o país sul-africano mais que quadruplicou suas compras em 2025 em comparação com o ano anterior, totalizando US$ 49 milhões. Mariana Bahia, representante da Câmara de Comércio Brasil – África do Sul, explica que o pé de galinha é a base de pratos populares como o “walkie-talkie”.

O nome “walkie-talkie” faz referência às partes do frango utilizadas na receita: o pé (walk, andar) e a cabeça (talk, falar). Diferentemente da China, onde a textura crocante é apreciada, na África do Sul o pé de galinha é consumido bem cozido e ensopado, lembrando o ensopado mineiro. O prato, assim como outros populares na culinária sul-africana, tem raízes no período colonial, quando a população negra, com acesso restrito a cortes nobres de carne, desenvolveu receitas criativas com miúdos.

Demanda Interna e a Indústria Pet Impulsionam o Valor

A valorização do pé de galinha no Brasil não se deve apenas às exportações. O crescimento da indústria pet no país também contribui significativamente para o aumento de seu preço. O pé de galinha que não é exportado é, em grande parte, destinado à fabricação de farinhas para ração animal, um mercado em expansão.

A chef Jiang Pu, que se tornou conhecida no MasterChef Brasil, relata que em 1998 o pé de galinha era dado de graça nos açougues. Hoje, ela já chegou a pagar R$ 14 o quilo em São Paulo. Essa discrepância evidencia a mudança drástica no valor percebido e comercial deste produto, que se tornou um ingrediente valorizado tanto na culinária quanto na indústria.

Raízes Históricas e Culturais do Aproveitamento Integral

Tanto na China quanto na África do Sul, o aproveitamento integral dos animais tem raízes históricas e culturais profundas. Na China, séculos de guerras e desastres naturais forçaram as pessoas a maximizar o uso de todos os recursos disponíveis. Na África do Sul, o período de segregação limitou o acesso a cortes de carne, incentivando a criatividade culinária com miúdos.

Essa prática de não desperdiçar nada é um reflexo da resiliência e da engenhosidade humana em adaptar-se a diferentes contextos sociais e econômicos. O pé de galinha, antes visto como um resíduo, agora é um símbolo dessa adaptação e um componente valioso do comércio internacional brasileiro.

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