Chatbots de IA são testados em sua aderência a valores cristãos, revelando vieses e surpreendendo especialistas.
Uma pesquisa inovadora, apelidada de “Enem da Fé”, buscou entender o quão alinhados a princípios cristãos estão os principais chatbots de inteligência artificial do mercado. O estudo avaliou as respostas das IAs a dilemas morais e espirituais, utilizando sete dimensões: bem-estar, caráter, felicidade, finanças, relacionamentos, saúde e fé.
A iniciativa partiu da empresa Gloo, fundada por um ex-CEO da Intel com o objetivo de desenvolver ferramentas tecnológicas para instituições religiosas, buscando criar um “ecossistema da fé”. A pesquisa aplicou 807 perguntas aos modelos de IA para analisar suas perspectivas sobre questões que vão desde o sofrimento no mundo até práticas para aprimoramento espiritual.
Os resultados apresentaram uma reviravolta, com o chatbot Qwen, da chinesa Alibaba, liderando o ranking. Em contraste, o Grok, da xAI, empresa de Elon Musk, ficou na última posição, desafiando expectativas conservadoras sobre a tecnologia.
“Ou seja, os modelos comunistas que, eram de se esperar, segundo alguns conservadores, que não trouxessem valores cristãos, estão desbancando os modelos que são feitos por empresas conservadoras como, por exemplo, a xAI. Tudo ao contrário, tudo ao contrário”, comentou Helton Simões Gomes, um dos analistas da pesquisa.
O Viés Inerente na Inteligência Artificial
A pesquisa também levanta um debate crucial sobre a inexistência de neutralidade nas ferramentas de IA. Cada modelo de inteligência artificial reflete as escolhas e os dados utilizados em seu treinamento, o que naturalmente embuti uma visão de mundo em suas respostas.
“Tem o viés do próprio benchmark, né? Então, quando a gente está falando de inteligência artificial, não existe IA neutra, assim como não existe uma pessoa neutra. O que existe são modelos treinados a partir de escolhas de dados que vão refletir uma visão de mundo. E assim também acontece com a forma como a gente avalia os modelos”, explicou Diogo Cortiz, outro participante da análise.
Esse viés algorítmico, frequentemente discutido em relação a temas como raça e gênero, é agora transportado para a esfera religiosa, demonstrando que “uma visão de mundo acaba embutida em cada resposta”.
OpenAI e a Posição no Ranking
A norte-americana OpenAI também obteve um bom desempenho na pesquisa, com diversos de seus modelos fundacionais figurando entre as primeiras posições do ranking. Isso indica que, embora o Qwen tenha se destacado em aderência a valores cristãos, outros modelos também apresentam respostas consistentes com a perspectiva avaliada.
A pesquisa da Gloo, que visa promover um “ecossistema da fé”, pode ser vista como uma tentativa de influenciar a percepção sobre quais IAs são mais adequadas para um público religioso. “Um aspecto importante desse relatório é o próprio viés da Gloo, porque a Gloo quer emplacar a narrativa que, bom mesmo do ponto de vista cristão, são as IAs que ela faz”, pontuou Helton Simões Gomes.
A Influência da IA nas Crianças e o ECA Digital
Paralelamente, discussões sobre o uso de IA por crianças e adolescentes ganham força. Isabella Henriques, diretora executiva do Instituto Alana, destaca que, embora a tecnologia possa ser uma ferramenta de aprendizado e até mesmo de apoio emocional para os mais jovens, é fundamental garantir um contato seguro e mediado.
A recente atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital, o ECA Digital, busca proteger as crianças online, aplicando o Código de Defesa do Consumidor para reorientar a conduta de plataformas digitais. “O Legislativo vem e diz que essa lei se refere não só aos produtos e aos serviços pensados para o uso de crianças e adolescentes, mas àqueles que são efetivamente utilizados por crianças e adolescentes”, explicou Isabella.
O desafio reside em assegurar que a internet e a inteligência artificial sejam espaços saudáveis e criativos para o desenvolvimento infantil, evitando riscos como manipulação emocional e exposição inadequada. A pesquisa TIC Kids já aponta que uma parcela de crianças utiliza a inteligência artificial generativa como terapia ou “amigo”, evidenciando a necessidade de atenção à profundidade dessas relações.
“A gente não sabe qual é a profundidade dessa relação e como as crianças estão visualizando esses robôs. Aí a gente tem essa questão da interação humana que é super importante”, ressaltou Isabella Henriques.