Indianas expostas a conteúdo chocante para treinar IA enfrentam grave crise de saúde mental
Mulheres em comunidades rurais da Índia estão sendo submetidas a um trabalho árduo e emocionalmente desgastante: a moderação de conteúdo para treinar inteligência artificial. Elas assistem a centenas de imagens e vídeos violentos e pornográficos todos os dias, o que tem gerado um impacto profundo em sua saúde mental.
O The Guardian reportou que essas trabalhadoras, contratadas por grandes empresas de tecnologia globais, lidam com material que causa um sofrimento psicológico significativo. A exposição constante a cenas cruéis e perturbadoras deixa marcas difíceis de apagar, afetando o bem-estar e a qualidade de vida dessas mulheres.
O relato de uma das trabalhadoras, Monsumi Murmu, de 26 anos, ilustra a gravidade da situação. Ela descreveu a dificuldade em dormir nos primeiros meses, com as imagens do trabalho invadindo seus pensamentos. Aos poucos, o choque inicial deu lugar a um sentimento de vazio, uma desconexão emocional como mecanismo de defesa.
Especialistas alertam que os efeitos psicológicos dessa atividade podem ser comparados aos de profissões de alto risco. A socióloga Milagros Miceli, líder do projeto Data Workers’ Inquiry, considera a moderação de conteúdo uma tarefa perigosa, com poucas chances de escapar de danos psicológicos, conforme divulgado pelo The Guardian.
O custo invisível do treinamento de IA
O trabalho de moderação de conteúdo, essencial para o desenvolvimento de inteligência artificial mais segura e eficaz, recai sobre ombros que nem sempre recebem o suporte adequado. Essas mulheres indianas, muitas vezes em situações de vulnerabilidade econômica, acabam se tornando a linha de frente contra o material nocivo online, mas pagam um preço alto por isso.
A exposição diária a conteúdos extremos, como violência gráfica, abuso e pornografia, pode levar a quadros de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. A dificuldade em dissociar a vida pessoal do ambiente de trabalho é um desafio constante, afetando relacionamentos e a capacidade de desfrutar de momentos de lazer.
Vazio emocional como consequência
Monsumi Murmu, citada pelo The Guardian, descreveu a transição de um estado de choque inicial para um sentimento de completa apatia. Essa dessensibilização, embora possa parecer uma forma de proteção, é um sinal preocupante de esgotamento emocional. O vazio que ela sente indica uma desconexão com suas próprias emoções, um reflexo do peso do conteúdo que processa.
A socióloga Milagros Miceli reforça que é incomum encontrar moderadores que não sofram os efeitos psicológicos dessa exposição. Ela classifica a moderação de conteúdo como uma atividade perigosa, comparável a setores conhecidos por seus riscos à saúde e segurança, evidenciando a urgência de abordar o bem-estar desses trabalhadores.