BRB em meio a polêmica: Dívidas quitadas e inexistentes de clientes do Master e Will Bank aparecem no Banco Central
Clientes que contrataram empréstimos e serviços financeiros no Will Bank e no Banco Master relatam um cenário preocupante: a aparição de dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central. O mais intrigante é que esses registros estariam sendo feitos pelo BRB, mesmo que os débitos já tenham sido quitados ou nunca tenham existido.
A descoberta ocorreu quando os consumidores consultaram o Registrato, ferramenta do Banco Central que consolida informações financeiras compartilhadas por instituições. A situação se torna ainda mais complexa pelo fato de muitos desses clientes jamais terem tido qualquer vínculo direto com o BRB, o banco público que agora figura como credor em seus históricos.
O elo entre os clientes e o BRB remonta à aquisição de carteiras de crédito pelo banco brasiliense. O BRB chegou a anunciar um acordo para comprar o Banco Master em março de 2025, uma transação estimada em R$ 2 bilhões, que foi posteriormente vetada pelo Banco Central em setembro. Após a liquidação extrajudicial do Master, investigações da Polícia Federal apontaram para um suposto esquema de fraudes bilionárias, onde o BRB teria adquirido R$ 12 bilhões em carteiras de crédito de baixa qualidade do Master.
Como compensação por essas carteiras, o Master teria repassado novas carteiras ao BRB, parte delas originada pelo Will Bank. É a partir daí que, supostamente, teriam surgido os dados dos clientes agora notificados pelo BRB. Conforme informação divulgada pelo g1, o BRB declarou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber informações cruciais do liquidante sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas.
A versão do BRB: Falha na comunicação com o liquidante
Em nota, o BRB explicou que, de acordo com as regras, a responsabilidade pelo acompanhamento dos pagamentos e pelo repasse dos valores é da instituição que originou o crédito. Contudo, após a liquidação do Will Bank, esse fluxo de informações foi interrompido. O banco público afirmou que não dispõe de dados suficientes para dar baixa nas operações, o que explica a aparição de contratos como ativos ou inadimplentes no SCR, mesmo que já pagos na origem.
O BRB confirmou ter realizado conciliações internas e enviado comunicados ao liquidante solicitando a retomada do processo. A instituição ressalta que a compra das carteiras seguiu todas as regras contratuais e que toda operação de crédito é registrada no SCR. O banco declarou que está atuando junto ao liquidante para normalizar a situação e está preparado para corrigir os dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação.
Especialistas apontam falhas e obrigações legais
Especialistas em direito financeiro e empresarial, como Fabio Braga e Pedro Ramunno, destacam que, embora a venda e transferência de carteiras de crédito sejam práticas comuns, as instituições têm obrigações com os clientes. A legislação exige a notificação formal ao consumidor sobre a cessão de crédito, para que ele saiba a quem deve pagar. Essa notificação deve ser feita por escrito, com comprovação de ciência pelo devedor.
Bruno Balduccini, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados, e Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio de Janeiro, argumentam que o BRB não pode alegar que um terceiro é responsável por registros indevidos. Para eles, o banco público deveria ter realizado uma verificação prévia dos dados, especialmente diante de sinais de risco nas carteiras adquiridas. A instituição compradora assume a responsabilidade de classificar novos clientes e validar as informações antes de repassá-las ao Banco Central.
Impactos para os consumidores e aumento de reclamações
A falta de resolução para esses registros indevidos já causa prejuízos. Um cliente, que pediu para não ser identificado, teve um financiamento imobiliário negado devido a uma suposta dívida vencida. Ele contatou o BRB e abriu um chamado na ouvidoria, que alegou falta de dados atualizados. As parcelas indevidas, no valor de R$ 10 mil, continuavam sendo cobradas e registradas.
O site Reclame Aqui aponta um aumento expressivo nas reclamações. Somente em janeiro deste ano, foram registradas cerca de cem queixas semelhantes. Entre agosto e dezembro de 2025, o número chegou a 324, um aumento de 326% em comparação com os 76 registros do mesmo período em 2024. Os relatos descrevem dívidas desconhecidas atribuídas ao BRB, muitas vezes referentes a contratos já quitados ou inexistentes com o Will Bank e o Banco Master.
O que fazer em caso de dívida indevida no Registrato?
Especialistas orientam que os clientes afetados entrem em contato com a instituição credora e solicitem formalmente, por escrito, o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual banco originou a dívida. Caso a situação não seja resolvida amigavelmente, a recomendação é registrar reclamações em órgãos como Procon e Consumidor.gov. Se necessário, o consumidor pode buscar a Justiça, seja por meio do Juizado Especial ou da Justiça comum, para regularizar a situação.