Haddad Confirma Indicação de Guilherme Mello para o BC, Mas Lula Ainda Não Decidiu; Mercado Reage com Cautela

Haddad indica Guilherme Mello para o BC, mas decisão final é de Lula; mercado financeiro demonstra apreensão

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou nesta terça-feira (3) ter indicado Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica da pasta, para uma das vagas na diretoria do Banco Central (BC). A indicação foi feita há cerca de três meses ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas Haddad ressaltou que a decisão final sobre o nome ainda não foi tomada pelo chefe do Executivo.

Haddad manifestou descontentamento com o vazamento da informação à imprensa, classificando a atitude como prejudicial aos envolvidos. “De lá para cá, não voltamos a conversar. E três semanas atrás, ele [Lula] disse para mim que ia nos chamar para conversar, mas ele não tomou a decisão. O vazamento, se a pessoa quis ajudar, não ajudou. Se quis atrapalhar uma sugestão, ela agiu mal para os envolvidos”, declarou o ministro em entrevista à Band News.

A divulgação do nome de Guilherme Mello para o BC gerou reações diversas no mercado financeiro. Analistas expressaram receio de que o perfil técnico de Mello, considerado desenvolvimentista e favorável a um corte mais rápido da taxa de juros, possa comprometer os esforços de controle da inflação. A principal missão do Banco Central é justamente manter a inflação sob controle, utilizando a taxa básica de juros como principal instrumento.

A indicação de Mello, conforme apurado pelo g1, surge em um contexto de duas vagas abertas na diretoria do BC desde o início deste ano, após a saída de diretores indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A autonomia do Banco Central, aprovada em 2021, estabelece que o presidente e os diretores são indicados pelo presidente da República para mandatos de quatro anos, sem possibilidade de substituição antes do prazo.

Perfil Técnico de Guilherme Mello e Contexto da Indicação

Guilherme Mello possui formação acadêmica robusta, com graduação em Ciências Sociais pela USP e em Ciências Econômicas pela PUC-SP. É mestre em Economia Política pela PUC-SP e doutor em Ciência Econômica pela Unicamp. Sua trajetória profissional o credencia para a função, mas seu viés econômico gera debates.

Além de Mello, Haddad informou que indicou ao presidente Lula o nome de Tiago Cavalcanti, professor catedrático da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, para outra vaga na diretoria do BC. Cavalcanti possui graduação em Ciências Econômicas pela UFPE, mestrado e doutorado pela Universidade de Illinois.

As vagas em questão foram deixadas por Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) e Diogo Guillen (Política Econômica), ambos indicados por Jair Bolsonaro. O cargo de diretor de Política Econômica é considerado crucial, pois o ocupante tem papel fundamental na definição da taxa básica de juros (Selic), atualmente em patamares elevados.

Repercussão no Mercado e o Papel da Diretoria do BC

A possibilidade de um diretor com perfil desenvolvimentista na condução da política monetária gerou apreensão. O mercado financeiro, historicamente, demonstra cautela com indicações que possam sinalizar uma postura menos ortodoxa no combate à inflação. A taxa Selic, instrumento principal do BC, está em seu maior nível em quase 20 anos.

O Banco Central indicou, na semana passada, que pretende iniciar o corte da taxa de juros em março, em sua próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). O diretor de Política Econômica tem a responsabilidade de apresentar aos membros do Copom a situação macroeconômica do país, cenários, projeções e recomendações sobre a política monetária, além de propor o nível da taxa de juros.

Este diretor também coordena a elaboração de relatórios e comunicados importantes sobre as decisões de política monetária. Sua participação é essencial nas apresentações trimestrais sobre a política de juros, juntamente com o presidente do BC. A composição da diretoria do Banco Central com indicações da atual gestão petista se consolidará a partir de 2025.

Autonomia do BC e Críticas Anteriores

A autonomia do Banco Central, sancionada em 2021, confere ao presidente da República a prerrogativa de indicar os membros da diretoria. No passado, o presidente Lula e integrantes do governo teceram críticas mais contundentes às decisões do BC, especialmente em relação à taxa de juros e ao então presidente Roberto Campos Neto. Mesmo com a autonomia, críticas pontuais ao Banco Central ainda são feitas por membros do governo.

Em ocasiões anteriores, o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, evitou comentar sobre indicações de futuros diretores, ressaltando que essa é uma prerrogativa exclusiva do presidente da República. “Tenho por orientação não entrar na prerrogativa do presidente [Lula, responsável por indicar os nomes]. Perfil, quando, o presidente vai comunicar isso. Não cabe ao BC falar sobre prerrogativa do presidente. Mesmo que a gente participe [do debate], quem vai falar sobre isso é o presidente”, afirmou Galípolo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *