Investir em Ouro: Um Porto Seguro em Meio à Turbulência Econômica Global?
O preço do ouro ultrapassou a marca histórica de US$ 5 mil por onça, um feito inédito que reflete a crescente busca dos investidores por segurança em um cenário de instabilidade econômica e geopolítica. Este aumento expressivo, que já ultrapassa 60% em 2025, levanta a questão: o ouro é realmente o refúgio confiável que muitos acreditam ser?
As tensões internacionais, como o impasse entre Estados Unidos e OTAN sobre a Groenlândia, e as políticas comerciais do presidente americano Donald Trump, incluindo a ameaça de tarifas contra o Canadá, têm gerado ondas de apreensão nos mercados globais. Paralelamente, guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, somadas a outros fatores, contribuem para um ambiente de incerteza.
Além das questões políticas, a inflação mais alta que o usual, a desvalorização do dólar americano e a expectativa de cortes nas taxas de juros pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA) também impulsionam a demanda por metais preciosos. Conforme explica o estrategista de pesquisa Ahmad Assiri, da corretora Pepperstone, a relação é inversa: quando as taxas de juros caem, o custo de oportunidade de manter dinheiro em títulos do governo diminui, tornando o ouro uma alternativa mais atrativa.
Esses elementos, combinados com a percepção histórica do ouro como reserva de valor, criam um cenário propício para a valorização do metal. Mas quais são as nuances desse investimento e quais os riscos envolvidos? Conforme informação divulgada por analistas de mercado, investir em ouro pode ser uma estratégia para diversificar o portfólio em um mundo volátil.
Por Que o Ouro Sobe em Momentos de Incerteza?
O ouro e outros metais preciosos, como a prata — que também atingiu recordes, superando US$ 100 a onça —, são tradicionalmente vistos como ativos seguros. Em períodos de turbulência econômica, política ou social, investidores tendem a migrar para ativos tangíveis e com valor intrínseco, afastando-se de investimentos mais voláteis como ações.
A escassez natural do ouro é um de seus principais atrativos. Estima-se que, desde o início dos tempos, apenas cerca de 216.265 toneladas tenham sido mineradas, uma quantidade que caberia em poucas piscinas olímpicas. A maior parte dessa extração ocorreu após 1950, com avanços tecnológicos.
Além disso, a compra de ouro por bancos centrais de todo o mundo tem sido um fator significativo. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, esses órgãos acumularam centenas de toneladas em suas reservas no último ano, buscando diversificar seus ativos e fugir do risco de investimentos em ações em tempos de instabilidade. Essa movimentação, segundo o historiador da economia Philip Fliers, pode ser responsável por grande parte do recente aumento nos preços.
O Papel das Taxas de Juros e do Dólar na Valorização do Ouro
A expectativa de que o Federal Reserve reduza suas taxas de juros, possivelmente duas vezes em 2026, é um catalisador importante para o preço do ouro. Taxas de juros baixas diminuem o retorno de investimentos de renda fixa, como títulos do governo, tornando o ouro, que não oferece rendimento, mais competitivo em termos de custo de oportunidade.
A desvalorização do dólar americano também beneficia o ouro. Como o metal é precificado em dólares, uma moeda mais fraca torna o ouro mais acessível para compradores que utilizam outras moedas, aumentando a demanda global. Nikos Kavalis, diretor-gerente da consultoria Metals Focus, aponta para um claro afastamento do dólar, o que impulsiona o ouro.
Ouro como Diversificação e Reserva de Valor Histórica
O ouro possui um apelo cultural e simbólico profundo ao longo da história humana, desde o Egito Antigo até o presente. Para muitos, o investimento em ouro, seja em forma física, joias ou fundos negociados em bolsa (ETFs) atrelados ao metal, representa uma forma confiável de proteger o patrimônio.
Nicholas Frappell, chefe global de mercados institucionais da ABC Refinery, destaca que possuir ouro significa não estar atrelado à dívida de terceiros, como ações ou títulos, cujo desempenho depende da saúde de empresas ou governos. Ele o considera uma ótima opção de diversificação em um mundo repleto de incertezas.
No entanto, é importante notar que o valor do ouro pode ser volátil. Planejadora financeira Anita Wright, da Ribble Wealth Management, observa que o ouro reage rapidamente a oscilações na confiança dos mercados financeiros e na estabilidade política. Frappell, por sua vez, alerta que notícias inesperadas podem tanto impulsionar quanto derrubar as cotações do metal precioso.
Riscos e a Perspectiva de Longo Prazo para Investir em Ouro
Embora o ouro tenha demonstrado forte desempenho em 2025, analistas como Philip Fliers advertem que especular em seu aumento de preço pode ser arriscado. Ele sugere que, quando os mercados se acalmarem e a estabilidade política for restaurada, os investidores podem abandonar o ouro, levando a uma queda em suas cotações.
Por isso, muitos especialistas recomendam que o investimento em ouro seja feito a longo prazo, como uma estratégia de proteção patrimonial e diversificação. A demanda sazonal, especialmente em mercados como Índia e China, onde o ouro é adquirido em festivais e ocasiões especiais, também influencia o mercado, mas a perspectiva de investimento de longo prazo parece ser a mais prudente.