Dólar em queda: entenda os fatores que impulsionam o real e os riscos que rondam a moeda
Após um período de forte valorização, o dólar tem apresentado uma trajetória de queda significativa frente ao real. A moeda americana, que chegou a ser cotada a R$ 6,20 no final de 2024, iniciou 2026 em movimento descendente, voltando a operar em patamares semelhantes aos de maio do ano anterior. Esse cenário, impulsionado por uma combinação de fatores internacionais e domésticos, já começa a gerar reflexos no consumo, na inflação e nas decisões de investimento dos brasileiros.
A desvalorização do dólar não é um evento isolado, mas sim o resultado de um conjunto de variáveis econômicas e políticas. No âmbito internacional, a expectativa de uma redução nas taxas de juros nos Estados Unidos e o aumento das incertezas políticas norte-americanas têm diminuído o apelo do dólar como um ativo de segurança. Isso tem levado investidores a buscarem oportunidades em mercados emergentes, como o Brasil.
O Brasil, por sua vez, tem se destacado como um destino atraente para o capital estrangeiro, principalmente devido ao elevado diferencial de juros. A taxa básica de juros, a Selic, encontra-se em seu patamar mais alto em quase duas décadas, o que torna o país uma aposta interessante para investidores em busca de retornos mais expressivos. Essa estratégia, conhecida como “carry trade”, onde recursos são captados em países com juros baixos para serem investidos em mercados de maior rentabilidade, tem direcionado capital para a Bolsa brasileira.
A alta da Bolsa, que tem renovado recordes e superado os 180 mil pontos, é um reflexo direto desse fluxo de entrada de dólares, contribuindo para a pressão de queda na cotação da moeda americana. Esse movimento, contudo, vai além do mercado financeiro, impactando diretamente o bolso dos consumidores. Conforme informações divulgadas pela consultoria Zero Markets Brasil e pela StoneX Banco de Câmbio, a valorização do real tende a baratear produtos importados, como eletrônicos, eletrodomésticos e medicamentos, além de reduzir os custos de viagens internacionais e serviços atrelados à moeda estrangeira. Essa diminuição na pressão inflacionária abre espaço para discussões sobre o corte da taxa Selic, conforme aponta a análise de especialistas. Conforme informação divulgada por fontes do mercado financeiro, a trajetória recente da inflação acumulada em 12 meses reflete esse cenário, com desaceleração nos meses finais de 2025.
Impactos no Bolso e na Economia
A queda do dólar tem um impacto direto e positivo no poder de compra dos brasileiros. A diminuição do custo de importação de bens como eletrônicos, eletrodomésticos e medicamentos tende a se traduzir em preços mais baixos nas prateleiras ou, pelo menos, em uma menor pressão por reajustes. Essa dinâmica contribui para a redução da inflação, um dos principais objetivos da política monetária.
Além disso, os gastos com viagens internacionais, passagens aéreas e pacotes turísticos tendem a se tornar mais acessíveis. Serviços como assinaturas de streaming e compras em sites estrangeiros, que antes pesavam mais no orçamento, agora devem apresentar um alívio. Essa melhora nas expectativas inflacionárias pode, inclusive, abrir caminho para que o Banco Central avalie o início do corte na taxa básica de juros, a Selic.
Oportunidades e Riscos para Investidores
No mercado financeiro, a valorização do real favorece a Bolsa brasileira, atraindo o interesse de investidores estrangeiros. Empresas que exportam e recebem em dólar podem ver suas receitas diminuírem em reais, mas setores voltados ao consumo interno, como varejo e serviços, tendem a se beneficiar. Para quem investe em renda fixa, a estabilidade do câmbio e a perspectiva de juros mais baixos podem tornar títulos prefixados e atrelados à inflação mais interessantes, embora o potencial de retorno no médio prazo possa ser limitado.
Especialistas como Otávio Araujo, da Zero Markets Brasil, sugerem que este é um momento oportuno para revisar a alocação de investimentos e ajustar as carteiras de acordo com os novos patamares do câmbio, buscando alinhar riscos e objetivos. Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, reforça a ideia de que parte dos ganhos com a alta do dólar já foi capturada, e o momento pede ajustes estratégicos.
Alerta para o Futuro: Eleições e Fisco
Apesar do cenário favorável, a trajetória de queda do dólar não está isenta de riscos. A partir de abril de 2026, o debate eleitoral ganhará força, podendo influenciar as decisões do mercado e ofuscar os fundamentos macroeconômicos. A questão fiscal permanece como um ponto de atenção crucial.
A ausência de sinais claros de compromisso com o equilíbrio das contas públicas pode minar a confiança dos investidores e reverter a tendência de queda do dólar. Um aumento no “prêmio de risco do Brasil” pode ocorrer, impactando negativamente a economia, a inflação e as expectativas para a taxa básica de juros, conforme alerta Bruno Shahini.