Fed dos EUA para ciclo de cortes e mantém juros entre 3,50% e 3,75%, sob pressão de Trump, com impacto no Brasil.
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, decidiu nesta quarta-feira (28) manter a taxa de juros do país na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, o menor nível desde setembro de 2022. Essa decisão interrompe um ciclo de três cortes consecutivos e ocorre em um momento de crescentes tensões entre o presidente Donald Trump e a instituição.
A manutenção da taxa já era amplamente esperada pelo mercado financeiro. No entanto, a primeira decisão sobre os juros em 2026 acontece em meio a um cenário político conturbado, com o presidente Donald Trump intensificando suas críticas ao Fed e ao seu presidente, Jerome Powell.
As acusações diretas de Trump a Powell e a tentativa de demitir a diretora Lisa Cook, caso ainda em julgamento pela Suprema Corte, adicionam uma camada de incerteza à política monetária americana. O Fed, por sua vez, justificou a decisão apontando para a baixa geração de empregos e a estabilidade do desemprego, além de uma inflação ainda considerada “um pouco alta”.
Em comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) ressaltou a elevada incerteza sobre as perspectivas econômicas e a atenção aos riscos em ambos os lados de seu duplo mandato, que visa estimular o emprego e controlar a inflação. Jerome Powell, em entrevista, reforçou o tom mais cauteloso do comunicado, indicando que um novo corte de juros é improvável no curto prazo. Conforme informação divulgada pelo Fed, a política de juros nos EUA tem reflexos diretos no Brasil, com a manutenção de taxas elevadas nos EUA aumentando a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio.
Tensões políticas e o Fed: Trump busca influenciar a política monetária
Esta foi a nona decisão sobre juros desde a posse de Donald Trump como presidente dos EUA em janeiro de 2025. Durante seu mandato, já ocorreram três cortes de juros, em um contexto de cenário econômico mais adverso, marcado pela guerra tarifária promovida pelo republicano. Economistas e o próprio Fed expressaram temores sobre os impactos das sobretaxas de Trump na economia americana, especialmente o receio de alta na inflação ao consumidor, o que tem levado o banco central a adiar a redução dos juros.
No segundo semestre de 2025, sinais de desaceleração da economia americana, com dados de um mercado de trabalho mais fraco, contrastaram com a inflação que, embora acima da meta de 2%, seguia sob controle. Essa dualidade dividiu opiniões no Fed, mas abriu espaço para os cortes de juros anteriores.
O FOMC afirmou que continuará monitorando as implicações das novas informações para as perspectivas econômicas e que está preparado para ajustar a política monetária caso surjam riscos que comprometam seus objetivos. Analistas interpretaram o comunicado como mais duro que o de dezembro, sugerindo que a taxa de juros deve permanecer estável por algumas reuniões. A decisão não foi unânime, com dois diretores votando por um corte de 0,25 ponto percentual, incluindo Stephen I. Miran, nomeado por Trump.
Powell indica cautela e Trump cogita substituição na presidência do Fed
Em entrevista, Jerome Powell indicou que um novo corte de juros é improvável no curto prazo, destacando uma melhora nas perspectivas de crescimento e uma inflação “basicamente dentro do esperado”. Ele também mencionou “evidências de estabilização” nos dados do mercado de trabalho. O mandato de Powell como presidente do Fed termina em maio, e Donald Trump já indicou seu desejo de nomear um substituto alinhado à sua agenda econômica, que preza por juros abaixo de 1%.
Trump já manifestou a intenção de indicar o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que recusou o convite. Nomes como Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca, e os diretores do Fed Christopher Waller e Michelle Bowman, também são cotados. A pressão de Trump sobre o Fed é intensa, incluindo ameaças de acusação criminal contra Powell por supostos gastos excessivos na reforma da sede da instituição, alegações que Powell refuta.
Influência de Trump no Fed e impactos para o Brasil
Desde o segundo semestre de 2025, Trump tem se dedicado a nomear diretores alinhados à sua agenda. Ele já indicou Stephen Miran e aguarda uma decisão da Suprema Corte sobre a tentativa de demitir Lisa Cook. Caso consiga maioria de aliados no conselho do Fed, Trump pode aumentar sua influência sobre as decisões de juros e as nomeações nos 12 bancos regionais.
A manutenção de juros elevados nos EUA torna os títulos públicos americanos (Treasuries) mais atraentes para investidores estrangeiros, o que fortalece o dólar. Essa dinâmica tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real. Além disso, um dólar mais forte pressiona a inflação brasileira, contribuindo para a manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil.