EUA e China: Duas Estratégias Divergentes na Corrida Global pela Inteligência Artificial em 2026
A inteligência artificial (IA) se tornou o novo campo de batalha geopolítico, com Estados Unidos e China traçando caminhos distintos para a liderança tecnológica. Enquanto os americanos buscam manter sua supremacia em hardware, especialmente em chips de ponta, e exportar seu ecossistema de IA, os chineses focam em modelos de código aberto e na integração da IA com o mundo físico, como a robótica.
Essa disputa estratégica define não apenas o futuro da inovação, mas também a influência global de cada nação. As abordagens divergentes prometem um cenário de dominância em nichos específicos, em vez de uma única potência controlando todo o espectro da IA.
A estratégia americana, detalhada no plano “Vencendo a corrida: Plano de Ação de IA dos EUA”, visa remover barreiras regulatórias e exportar todo o seu conjunto de tecnologia de IA para evitar a dependência de rivais estratégicos. Em contrapartida, a China propõe um “Plano de Ação Global de Governança de IA”, promovendo um ecossistema diverso e aberto, com participação de múltiplas partes interessadas.
Conforme informações divulgadas pela DW, Scott Singer, pesquisador da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, aponta que a China se posiciona como uma líder global multilateral, enquanto os EUA, sob o governo Trump, priorizam a dominância americana. A China, segundo Singer, aproveita as lacunas deixadas pela retirada dos EUA de espaços na ordem internacional. Essa análise é crucial para entender as dinâmicas atuais e futuras da corrida pela IA.
O Domínio Americano em Chips e a Resistência Chinesa
Os Estados Unidos, com gigantes como a Nvidia liderando a produção de chips de IA, mantêm uma vantagem significativa em poder computacional. O controle de exportação sobre semicondutores avançados tem sido uma ferramenta chave para os EUA sustentarem essa liderança. A série Ascend da Huawei, com modelos como o Ascend 910, representa o avanço chinês em chips de IA, mas ainda fica aquém do desempenho dos chips americanos em tarefas de treinamento de modelos.
Apesar das restrições, empresas chinesas como Alibaba, Tencent e ByteDance demonstraram interesse em adquirir chips H200 da Nvidia, com pedidos que ultrapassam 2 milhões de unidades, totalizando mais de 50 bilhões de dólares. No entanto, a entrega desses chips tem enfrentado obstáculos, com relatos de que a alfândega chinesa recebeu instruções para não liberá-los, indicando uma complexa teia de controle e contra controle.
A Ascensão dos Modelos Open Weight Chineses
Mesmo sem acesso aos chips mais avançados, a IA chinesa tem ganhado força através de modelos de “open weight”, como DeepSeek, Moonshot AI e Qwen da Alibaba. Esses modelos, que disponibilizam seus parâmetros publicamente, permitem que desenvolvedores criem aplicativos de IA de forma mais acessível e eficiente. A família Qwen, da Alibaba, já superou a LLaMA da Meta em downloads na plataforma Hugging Face, evidenciando o crescente impacto dos modelos abertos chineses.
A estratégia de código aberto da China visa democratizar o acesso à IA e impulsionar a inovação. A Alibaba, por exemplo, tornou público o código de quase 400 modelos Qwen, gerando mais de 180 mil versões derivadas. Essa abordagem contrasta com a estratégia americana, que, embora reconheça a importância de modelos abertos, alerta para potenciais falhas de segurança e censura em modelos chineses.
Robótica e Aplicações Físicas: O Diferencial Chinês
Enquanto os EUA focam em expandir as capacidades de software e automatizar tarefas em computadores, a China está investindo pesadamente em robótica impulsionada por IA. A iniciativa “AI Plus”, planejada para 2026, visa integrar a IA em setores como indústria, serviços, saúde e governança, com o objetivo de criar uma sociedade “totalmente impulsionada por IA” até 2035.
Scott Singer destaca que a integração da IA ao mundo físico é a essência da política de IA da China, impulsionada pela crença de que resolverá desafios econômicos e sociais, como o desemprego jovem e a fraca demanda do consumidor. Essa aposta em robótica com IA coloca a China à frente de seus pares ocidentais em certas aplicações.
Um Futuro de Dominância Compartilhada?
O cenário para 2026 sugere uma divisão de liderança na corrida da IA. Os EUA mantêm uma vantagem clara em chips, enquanto a China avança rapidamente em modelos de linguagem e se destaca em robótica. Xiaomeng Lu, diretora de Geotecnologia da Eurasia Group, aponta que a China pode ultrapassar os EUA em certas áreas de governança de IA, especialmente se seus modelos de código aberto continuarem próximos aos modelos americanos em capacidade.
A atmosfera de inovação difere entre os polos tecnológicos. No Vale do Silício, há uma crença na capacidade transformadora dos modelos de base avançados. Na China, a experiência prática e a necessidade de resolver problemas concretos impulsionam a adoção de IA em aplicações físicas. A comercialização e a adoção pelos consumidores serão fatores cruciais para determinar o sucesso e a disseminação da IA globalmente.