Cientistas de Goiás Criam IA Pioneira para Interpretar o DNA Brasileiro, Revolucionando a Genética e a Medicina
Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) estão na vanguarda da inovação tecnológica com o desenvolvimento de um modelo de inteligência artificial (IA) capaz de ler e interpretar o DNA do povo brasileiro. Este avanço, comparável aos modelos que impulsionam o ChatGPT e o Gemini, foca em uma aplicação inédita: a decodificação da linguagem genômica.
A premissa é que, assim como o processamento de linguagem natural (NLP) lida com textos em português ou inglês, a IA pode ser treinada para compreender a complexa sintaxe, semântica e vocabulário do código genético. Essa abordagem inovadora visa superar as limitações atuais em testes genéticos, tornando-os mais ágeis, precisos e acessíveis para a população brasileira.
Celso Camilo, professor e cofundador do Centro de Excelência em IA (CEIA) da UFG, explica que o código genético é, em essência, uma linguagem. “No final das contas tudo é linguagem”, afirma Camilo, destacando a lógica por trás da aplicação de IA na genética. A iniciativa brasileira se diferencia por seu método de aprendizado progressivo, que aborda as especificidades do DNA nacional.
As informações sobre este projeto foram divulgadas pela UFG, que lidera este esforço pioneiro no país, com potencial para transformar o diagnóstico e o tratamento de doenças. A iniciativa busca não apenas identificar mutações genéticas, mas também contextualizá-las dentro da diversidade genética brasileira, evitando diagnósticos equivocados baseados em dados de populações europeias.
Etapas do Treinamento da IA Genômica Brasileira
O projeto se desenrola em três fases cruciais. Inicialmente, o modelo de IA aprenderá a estrutura fundamental da linguagem genômica, utilizando dados públicos. Em seguida, será exposto a sequências genéticas de brasileiros, com dados provenientes do Arquivo Brasileiro Online de Mutações (ABraOM) da USP, para identificar mutações frequentes na população nacional.
A terceira fase divide-se em duas frentes. Uma delas focará na classificação de mutações como patológicas, benignas ou de significado incerto, utilizando o banco de dados ClinVar. Paralelamente, a IA analisará dados genéticos de pacientes com câncer no Brasil, fornecidos pelo Laboratório Genético da UFG, para identificar especificidades regionais associadas à doença. Este laboratório é pioneiro no oferecimento de testes genéticos gratuitos pelo SUS.
Redução de Custos e Tempo em Testes Genéticos
A ambição dos pesquisadores de Goiás é tornar os testes genéticos mais portáteis e rápidos. A ideia é substituir equipamentos de laboratório por um sequenciador móvel e leve, capaz de fornecer resultados quase instantâneos. A IA brasileira processará esses dados, sinalizando mutações de relevância e variações genéticas tipicamente brasileiras.
Este novo processo, comparado a um serviço de Uber em vez de um ônibus lotado, promete reduzir o tempo de análise de meses, ou até um ano no sistema público, para cerca de oito horas. A expectativa é de uma redução de custos de até 95% por teste, caindo para aproximadamente US$ 17, um avanço significativo em relação aos custos atuais que variam de R$ 400 a quase R$ 10 mil.
Aplicações Futuras e Impacto na Saúde e Meio Ambiente
Inicialmente, a IA focará em análises relacionadas ao câncer de mama, devido à disponibilidade de dados. Contudo, o modelo poderá ser adaptado para detectar mutações associadas a outros tipos de câncer e doenças hereditárias. A longo prazo, a capacidade da IA de não só ler, mas também escrever códigos genéticos funcionais, abre portas para aplicações ambientais, como a criação de bactérias para degradar plástico ou o desenvolvimento de plantas mais resistentes a pragas, acelerando pesquisas atualmente realizadas pela Embrapa.
A parceira AWS (Amazon Web Services) fornecerá a capacidade computacional necessária para o treinamento intensivo da IA, um processo que demandará recursos na ordem de milhões de reais. A equipe projeta ter resultados funcionais de classificação em seis a sete meses, com os primeiros testes ocorrendo no laboratório de genética da UFG.