Europa em Alerta: ‘Grande Hesitação’ no Trabalho e o Futuro Incerto com IA e Menos Contratações

Europa vive ‘Grande Hesitação’ no mercado de trabalho, gerando alertas sobre o futuro. A era pós-pandemia trouxe mudanças significativas, e a desaceleração nas contratações acende um sinal de alerta para o futuro do trabalho no continente.

Após um período de aquecimento impulsionado pela pandemia, onde a escassez de mão de obra e a busca por equilíbrio entre vida pessoal e profissional dominaram as manchetes, o cenário europeu agora aponta para uma nova fase. A “Grande Demissão” deu lugar à “Grande Hesitação”, um reflexo da cautela tanto de empregadores quanto de empregados.

Empresas mostram-se mais relutantes em expandir suas equipes, enquanto trabalhadores ponderam cuidadosamente antes de deixar seus postos atuais. Essa mudança de postura é influenciada por um clima econômico global mais desafiador e pela crescente incerteza sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho.

Dados recentes indicam uma desaceleração no crescimento do emprego na zona do euro. Essa tendência, embora sutil em números percentuais, representa a criação de centenas de milhares de vagas a menos em comparação com anos anteriores, acendendo um alerta sobre a sustentabilidade do mercado de trabalho.

A migração, que antes auxiliava a suprir a demanda por trabalhadores, também mostra sinais de estabilização ou declínio em algumas regiões. Conforme informações divulgadas pelo Banco Central Europeu e outros órgãos de pesquisa, o mercado de trabalho europeu está passando por uma transformação, com implicações significativas para o futuro.

Desaceleração Econômica e o Impacto nas Contratações

O mercado de trabalho na zona do euro, que abrange 21 países, deve apresentar um crescimento mais lento em 2025, com projeção de 0,6%, uma leve queda em relação aos 0,7% esperados para este ano. Embora pareça uma diferença pequena, cada décimo de ponto percentual representa a criação de cerca de 163 mil empregos a menos.

Em contraste, há apenas três anos, a zona do euro criava aproximadamente 2,76 milhões de novos empregos, com uma taxa de crescimento robusta de 1,7%. Essa desaceleração sinaliza um período de maior cautela para empresas e trabalhadores.

Na Alemanha, um terço das empresas planeja reduzir seu quadro de funcionários este ano, segundo o think tank econômico IW. Na França, o desemprego tende a aumentar, e no Reino Unido, economistas preveem uma alta para até 5,5%. Países como Polônia, Romênia e República Tcheca também observam um aumento nas taxas de desemprego.

‘Grande Hesitação’ e ‘Career Cushioning’ Ganham Força

O cenário de mercado de trabalho mais frio deu origem a novos termos, como a “Grande Hesitação”. Este termo descreve tanto a relutância das empresas em contratar quanto a cautela dos trabalhadores em deixar empregos, especialmente aqueles que geram estresse, em busca de maior estabilidade. Outro conceito que ganha destaque é o “career cushioning”, a prática de preparar discretamente um plano B para lidar com instabilidades no mercado de trabalho e potenciais demissões.

A pesquisa da McKinsey de 2022 revelou que um terço dos trabalhadores europeus considerava deixar o emprego em um curto período, um número considerado impressionante para uma região com tradicionalmente baixa rotatividade de pessoal. Angelika Reich, consultora da Spencer Stuart, observa que o mercado europeu “esfriou”, tornando os funcionários mais cautelosos.

Apesar do panorama geral de desaceleração, algumas regiões e setores ainda apresentam demanda aquecida. Espanha, beneficiada pelo turismo pós-pandemia, e países como Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia, devem continuar a registrar crescimento no emprego, segundo o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional.

Setores Específicos e a Busca por Talentos

A escassez de trabalhadores, que antes parecia generalizada, agora se torna mais específica a determinados setores. “Ainda há sérias carências no varejo, saúde, logística, engenharia e outras funções altamente especializadas”, afirma Julian Stahl, especialista em mercado de trabalho da Xing.

A indústria alemã, em particular, tem sofrido com perdas de empregos em setores como o automotivo, de máquinas e metalúrgico. Altos custos de energia, demanda fraca por exportações e a concorrência chinesa impactaram negativamente a criação de vagas. Essa pressão afeta também fabricantes na França, Itália e Polônia.

A imagem negativa de alguns setores industriais pode afastar jovens talentos. Bettina Schaller Bossert, presidente da World Employment Confederation, alerta que muitos recém-formados acreditam não haver futuro em áreas como a automotiva, mesmo com novas oportunidades.

Inteligência Artificial: Ameaça ou Oportunidade?

O avanço da inteligência artificial (IA) gera apreensão entre os trabalhadores europeus. Um estudo da EY indica que um quarto dos profissionais teme que a IA possa colocar seus empregos em risco, com 74% acreditando que as empresas precisarão de menos funcionários.

Na Alemanha, projeções do Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) indicam que até 2040, 1,6 milhão de empregos podem ser remodelados ou perdidos para a IA. Embora cargos altamente qualificados possam ser afetados, o setor de tecnologia tem potencial para criar cerca de 110 mil novas vagas.

Enzo Webe, chefe de previsões do IAB, vê a IA como um motor de “transformação” do mercado de trabalho, mas não necessariamente de redução de vagas. Outras visões apontam para a criação de um “precariado da IA” ou para a redistribuição do trabalho, com a IA assumindo tarefas árduas e liberando mão de obra humana para atividades mais intelectuais e profissionais.

O rápido avanço da IA pode ser o “abalo” que, segundo Anthony Klotz, autor do termo “A Grande Demissão”, leva os trabalhadores a buscarem clareza e agirem preventivamente, antecipando as mudanças em seus papéis profissionais.

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