Acordo UE-Mercosul: Brasil é o centro da relação assimétrica, fornecendo energia e alimentos em troca de tecnologia europeia

Acordo UE-Mercosul: Brasil no centro de uma relação econômica assimétrica com a Europa

A recente assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, após mais de duas décadas de negociações, promete aproximar cadeias produtivas estratégicas entre os dois continentes. No entanto, o tratado também expõe uma relação econômica marcadamente assimétrica, na qual o Brasil assume uma posição central, ditando o ritmo e a escala das interações comerciais com o bloco europeu.

Este pacto histórico, que visa a redução ou eliminação gradual de mais de 90% das tarifas de importação e exportação, estabelece regras comuns para diversos setores, incluindo bens industriais, agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. A dimensão do comércio brasileiro com a UE é tão significativa que, na prática, a negociação se concentra na relação com o Brasil, relegando Argentina, Uruguai e Paraguai a um papel secundário dentro do acordo.

Dados da Comissão Europeia revelam a magnitude dessa centralidade brasileira. O país responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas à Europa. Essa concentração de poder comercial e influência molda a dinâmica do acordo, definindo os termos e os benefícios para cada membro do Mercosul.

Conforme informação divulgada pelo g1, essa configuração, que coloca o Brasil no epicentro da relação com a União Europeia, evidencia a dependência mútua, mas com fluxos e focos distintos. Enquanto o Brasil se destaca como fornecedor de energia e alimentos, a União Europeia é a principal fonte de tecnologia e bens de maior valor agregado para o país. Essa interdependência, embora desigual, é a espinha dorsal do acordo.

Brasil lidera em exportações e importações com a UE dentro do Mercosul

A proeminência do Brasil nas trocas comerciais com a União Europeia é inegável. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que, em 2025, o Brasil foi responsável por mais de 82% das importações da UE vindas do Mercosul e por aproximadamente 79% das exportações brasileiras para o bloco europeu. Essa disparidade consolida o Brasil como o principal interlocutor do acordo.

A Argentina, embora segundo maior parceiro comercial sul-americano com a UE, fica distante do Brasil. Em 2024, as exportações brasileiras para a Europa foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões. O Uruguai, apesar de um crescimento gradual, enfrenta limitações técnicas para atender às exigências ambientais europeias, enquanto o Paraguai, com um peso econômico reduzido, vê suas exportações estagnadas.

Dependência tecnológica brasileira e a importância dos insumos europeus

As importações brasileiras da União Europeia são fortemente concentradas em bens de alta tecnologia, essenciais para serviços públicos e atividades industriais. Em 2025, Alemanha, França e Itália foram os principais fornecedores, respondendo juntos por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE. Entre os produtos mais adquiridos estão medicamentos, autopeças, máquinas não elétricas, aeronaves e compostos químicos.

Essa dependência tecnológica é um dos pilares da relação assimétrica. A redução gradual das tarifas de importação, prevista no acordo, tende a diminuir os custos de produção no Brasil. Segundo José Pimenta, diretor de Comércio Internacional da BMJ Consultoria, a tributação atual pode elevar o preço final de insumos em até 40%, um custo que a eliminação de tarifas visa mitigar significativamente.

Brasil como fornecedor estratégico de energia e matérias-primas para a Europa

Para a União Europeia, o Brasil desempenha um papel crucial como fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas. Em 2025, os principais destinos das exportações brasileiras para a UE foram Holanda, Espanha e Alemanha. A composição dessa pauta exportadora é dominada por produtos primários e insumos industriais, vitais para as cadeias produtivas e o abastecimento energético e alimentar europeu.

Itens como óleo bruto de petróleo, café não torrado, farelo de soja, minérios de cobre, celulose e minério de ferro representam a espinha dorsal das exportações brasileiras para a Europa. Essa dinâmica reforça o papel do Brasil como um fornecedor essencial de recursos naturais e produtos agrícolas, complementando a demanda europeia por bens de maior valor agregado.

O contexto geopolítico e a estratégia europeia no acordo

O acordo UE-Mercosul também se insere em um contexto geopolítico mais amplo. Leonardo Munhoz, pesquisador da FGV, aponta que o tratado é visto pela Europa como parte de uma estratégia para fortalecer sua economia diante das tensões com China e Rússia. A busca por cadeias de suprimentos mais resilientes e diversificadas impulsiona o interesse europeu em aprofundar laços comerciais com blocos como o Mercosul, com o Brasil no centro dessa articulação.

A assimetria na relação é, portanto, moldada não apenas por fatores econômicos, mas também por interesses geopolíticos. A União Europeia busca garantir o acesso a recursos estratégicos e mercados, enquanto o Brasil se beneficia da redução de barreiras para seus produtos primários e da importação de tecnologia. A capacidade de influência política dos demais membros do Mercosul é limitada pela escala de suas economias e pela dinâmica das negociações, que favorecem o protagonismo brasileiro.

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