Banco Master e Reag: A Trama de R$ 450 Milhões que Abalou o Mercado Financeiro
A Polícia Federal (PF) e o Banco Central (BC) revelaram um complexo esquema financeiro envolvendo o Banco Master e a gestora de fundos CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antiga Reag Trust DTVM. A investigação, parte da Operação Compliance Zero, apura como fundos administrados pela Reag teriam sido utilizados para inflar artificialmente o patrimônio do Banco Master, em uma operação que levantou suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro.
O BC decretou a liquidação extrajudicial da CBSF nesta quinta-feira (15), após identificar o descumprimento de regras prudenciais que comprometiam a segurança da instituição. A medida, embora atinja a gestora, não afeta os fundos sob sua administração, que agora buscam novos administradores.
As apurações indicam que o Banco Master captava recursos através da oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rendimentos acima do mercado. O dinheiro captado, segundo a PF, era então direcionado para um esquema de triangulação e movimentação atípica através de fundos geridos pela Reag, com o objetivo de mascarar a real situação financeira do banco.
Conforme informação divulgada pela Polícia Federal, o esquema envolvia a concessão de um empréstimo vultoso e a subsequente circulação do dinheiro por diversos fundos, culminando no retorno ao próprio Banco Master, mas com uma aparência de legalidade e solidez inflada artificialmente. A investigação busca determinar os reais beneficiários e a extensão total da fraude.
O Mecanismo da Suposta Fraude: De Empréstimo a Títulos Supervalorizados
O cerne da investigação reside em uma operação específica realizada em abril de 2024. O Banco Master concedeu um empréstimo de R$ 459 milhões à empresa Brain Realty Consultoria. Em seguida, a Brain Realty transferiu R$ 450 milhões para o fundo Brain Cash, administrado pela Reag.
O dinheiro, em questão de minutos, circulou por outros fundos da Reag, como D Mais e High Tower. O fundo High Tower, utilizando esses recursos, comprou títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Embora a aquisição tenha custado cerca de R$ 850 milhões, o fundo registrou um valor superior a R$ 10 bilhões para esses ativos, uma clara tentativa de inflar o patrimônio e a rentabilidade de forma artificial.
A “Maquiagem” Contábil e o Retorno Camuflado do Dinheiro
Parte desses títulos, supervalorizados artificialmente, foi revendida a outros fundos da Reag, como o D Mais, por valores bilionários, intensificando a distorção contábil. Os R$ 450 milhões iniciais foram pulverizados entre diversos outros fundos da Reag, como Anna, Astralo 95 e Growth 95, no mesmo dia da operação.
A estratégia se completou quando, cerca de três horas depois, os fundos aplicaram praticamente todo o valor em CDBs do próprio Banco Master. Na prática, o dinheiro circulou por uma rede de fundos e retornou ao banco em um curto espaço de tempo, com o objetivo de criar uma falsa sensação de solidez e liquidez.
Familiares Envolvidos e a Ocultação de Patrimônio
A investigação da PF também aponta para o envolvimento de familiares dos controladores do Banco Master e do grupo Reag Investimentos na ocultação do controle real de ativos e fundos. Segundo a PF, filhos de um dos controladores foram utilizados para a prática dos crimes, com o intuito de desviar recursos do Banco Master.
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada em novembro do ano passado pelo Banco Central. A PF destaca que o BC já havia demonstrado, por meio de fluxogramas, o uso de diversos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDICs) para a operacionalização das fraudes no Banco Master, de maneira similar ao que foi verificado em investigações anteriores.
Especialista Analisa o Esquema e Seus Objetivos
Beny Fard, especialista em finanças e investimentos, explica que o objetivo financeiro desse tipo de desenho é criar uma aparência de boa performance, como liquidez e solidez, nos fundos. Além disso, a complexidade das operações visa confundir e dificultar o rastreamento do dinheiro, que passa por várias camadas, perdendo o vínculo direto com sua origem e tornando mais difícil a identificação de quem se beneficia.
“Em alguns casos, o dinheiro retorna ao próprio banco, agora ‘maquiado’ e com ‘cara de investimento legítimo’, numa lógica em que o capital ‘sai como empréstimo, gira por fundos e volta’ ao sistema financeiro”, afirma Fard, detalhando a dinâmica de “saída e retorno” do capital.