Operação Policial Expõe Rede de Influência do Fundador do Banco Master na Política e Justiça
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (14) a segunda fase da Operação Compliance Zero, voltada para as investigações sobre o Banco Master. As apurações, que acompanham a liquidação da instituição pelo Banco Central, trouxeram à tona o nome de Daniel Vorcaro, fundador e CEO do banco, revelando suas extensas conexões no cenário político e jurídico do Brasil.
As buscas e apreensões foram realizadas em diversos endereços ligados a Vorcaro e a familiares próximos, incluindo seu pai, irmã e cunhado, Fabiano Campos Zettel. Outros alvos notórios foram o empresário Nelson Tanure e o ex-presidente da Reag Investimentos, João Carlos Mansur. A operação, determinada pelo ministro Dias Toffoli, do STF, cumpriu mandados em quatro estados e determinou o bloqueio de bens que ultrapassam R$ 5,7 bilhões.
A defesa de Daniel Vorcaro declarou que o empresário tem colaborado integralmente com as autoridades e que todas as medidas judiciais serão atendidas com transparência. Advogados de outros alvos também se manifestaram, afirmando desconhecer os detalhes da investigação, mas colocando-se à disposição para esclarecimentos.
As revelações sobre as conexões de Daniel Vorcaro e do Banco Master ganham contornos ainda mais complexos diante do tamanho do impacto financeiro. A liquidação do Master, ocorrida após suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB, é considerada por especialistas um risco significativo ao sistema financeiro brasileiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a classificar o caso como a “maior fraude bancária” do país. Conforme apuração da BBC News Brasil, o caso está em fase de investigação sob sigilo no STF.
Um Banco Pequeno com Conexões Gigantescas
Apesar de figurar na 22ª posição entre os maiores bancos brasileiros no ano passado, com R$ 63 bilhões em ativos financeiros, o Banco Master, já extinto, representava apenas 2% do tamanho do Itaú Unibanco. Sua liquidação em novembro foi desencadeada por suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito para o Banco de Brasília (BRB), no valor de R$ 12,2 bilhões, conforme revelado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. A dimensão do impacto no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) é sem precedentes, afetando 1,6 milhão de investidores com R$ 41 bilhões em depósitos, o que representa um terço do caixa do fundo.
O economista Cleveland Prates Teixeira, da Fipe-USP e FGV-Law, expressou surpresa com a capacidade de um banco de pequeno porte como o Master de estabelecer tantas conexões em âmbitos políticos e institucionais. Essa abrangência levanta preocupações sobre a influência e o potencial de contaminação do sistema.
A Teia Política: Pontes entre o Banco e o Poder
As investigações apontam para figuras políticas como Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil, e Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, como intermediários nas negociações envolvendo o Banco Master. Eles teriam atuado na tentativa de venda do banco ao BRB, negócio vetado pelo Banco Central em setembro, apesar de ter sido aprovado pelo Cade. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), também demonstrou interesse na aquisição do Master para expandir a atuação do BRB no setor financeiro. A própria lei sancionada por Rocha para autorizar a compra do banco é alvo de escrutínio, assim como a operação de venda de carteiras de crédito ao BRB.
As doações eleitorais também reforçam as conexões. Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e alvo da operação, foi o maior doador pessoa física para as campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022, com R$ 5 milhões em doações. Zettel é CEO da Moriah Asset, um fundo de private equity. A assessoria de Tarcísio negou qualquer vínculo com Zettel, enquanto Bolsonaro não respondeu aos questionamentos.
Conexões Judiciais e Figuras de Destaque
O caso se aprofunda com as revelações sobre as relações de Daniel Vorcaro com o judiciário. O ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, teria tido o Banco Master entre seus clientes. Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, teria atuado como consultor e apresentado Vorcaro ao presidente Lula. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda, integrou um comitê consultivo do banco. O ex-presidente Michel Temer também esteve envolvido, atuando como mediador na tentativa de destravar a negociação do Master com o BRB em setembro de 2025.
Um contrato de R$ 129 milhões encontrado no celular de Vorcaro, firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, adiciona outra camada de complexidade. O contrato previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos. O STF, em nota, esclareceu que reuniões entre Moraes e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, foram sobre os efeitos da Lei Magnitsky, e não sobre a aquisição do Master pelo BRB. A assessoria de Moraes também negou que o escritório de sua esposa tenha atuado na operação Master-BRB.
O advogado Augusto de Arruda Botelho, ex-Secretário Nacional de Justiça, voltou a advogar após deixar o governo e incluiu um diretor do Banco Master entre seus clientes. Botelho foi visto em um jatinho particular com o ministro Dias Toffoli em viagem para assistir à final da Libertadores. Toffoli, posteriormente, colocou o caso do Banco Master sob sigilo e transferiu o inquérito para o STF, sob sua relatoria, alegando informações econômicas sensíveis. A decisão de sigilo e a transferência do caso para o STF geraram debates sobre a condução das investigações.
O Perfil de Daniel Vorcaro e a Ascensão do Banco Master
Daniel Vorcaro, 42 anos, natural de Belo Horizonte, é descrito como um banqueiro com origens na construção civil. Ele assumiu o controle do banco Maxima no final da década passada, rebatizando-o como Banco Master. Sua estratégia de negócios na Faria Lima, focada em CDBs com juros elevados, chamou atenção. Vorcaro se defendia das críticas, atribuindo-as a preconceito por ser um “outsider” no mercado financeiro.
A ostentação também marcou a trajetória de Vorcaro e do Banco Master. Investimentos em imóveis de luxo, como o hotel Fasano Itaim, uma festa de debutante avaliada em R$ 15 milhões com DJs renomados, e o patrocínio de camarotes de luxo na Sapucaí, além da aquisição de participação na SAF do Atlético Mineiro, evidenciam um estilo de vida extravagante.